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terça-feira, 26 de agosto de 2014

ALGUMAS HISTORIAS SOBRE GANESHA


“Por que Ganesha cavalga um rato”:
“Certa vez, existiu um demônio chamado Gajamukha. Gajamukha era um yogi que, devido à austeridade de suas práticas espirituais, tinha se tornado tão poderoso que era considerado invencível. Infelizmente, como acontece com alguns yogis, perdeu-se no caminho e acabou utilizando sua energia espiritual para fazer o mal. As coisas ficaram críticas para a estabilidade do mundo quando ele expulsou os deuses do céu. Estes, aterrados e, sem poder fazer nada para deter o demônio, chamaram Ganesha para que os ajudasse.                .

No início do confronto, o deus-elefante não pôde fazer muita coisa, pois Gajamukha era realmente poderoso e nenhuma arma utilizada contra ele conseguia atingi-lo. Eles se digladiaram nos céus por milênios, esgotando suas energias, sem que nenhum dos dois lutadores conseguisse sobrepujar o outro. No fim, Ganesha fez um grande sacrifício e arrancou sua própria presa direita, arremessando-a ao demônio com tanta força concentrada que este ficou seriamente ferido. Ao mesmo tempo, Ganesha lançou-lhe uma maldição, condenando-o a transformar-se num rato. O sortilégio funcionou e Gajamukha virou um roedor. Imediatamente, Ganesha saltou sobre ele e começou a cavalgá-lo.” (...)

Outra história sobre nosso amigo, diz que, quando criança, Ganesha saiu para brincar com seu arco e flecha e encontrou um gatinho.
Ganesha começou atirar flechas em sua direção e como o gatinho saiu correndo assustado, Ganesha, em sua ingenuidade, achou que o bichinho estivesse brincando.
Então continuou a atirar-lhe flechas enquanto o bichinho, desesperado, subia em árvores, rolava na lama e fazia de tudo para escapar. Durante um bom tempo, se divertiu bastante, mas depois se cansou da brincadeira e voltou para casa. Ao chegar, viu sua mãe toda arranhada, cansada e suja de lama. Ele logo perguntou o que havia acontecido. Parvati lhe respondeu que ele havia feito aquilo. Ganesha não entendeu e sua mãe lhe fez um carinho e explicou: Eu sou o mundo e tudo que nele existe. Cada vez que alguém faz mal ao mundo está fazendo mal a mim. Eu também sou esse gatinho, e se alguém faz mal a ele, eu também sofro.
Então, Ganesha, que era muito sabido, entendeu a lição que sua mãe queria lhe ensinar! Entendeu que até mesmo suas brincadeiras e ações com os pequenos seres afetam a sua grande mãe, que é o mundo.
Outra história, provavelmente a mais conhecida sobre Ganesha, é porque ele tem a cabeça de elefante. Geralmente ouvimos que ele foi decapitado por seu próprio pai, Shiva. Existe outra versão, pouco conhecida, narrada por Ada Albrechet no seu livro Satsang, contos da Índia(...).
Essa versão nos diz que quando Ganesha nasceu ele era um menino muito lindo! Seus olhos brilhavam como duas enormes estrelas e seu sorriso e simpatia atraíam multidões. Ganesha era tão especial que bastava alguém chegar perto dele para se encher de sabedoria e de riqueza.
Sua mãe, Parvati, ficou muito assustada, pois muitas pessoas – algumas muito ruins – tentavam se aproximar do seu querido filho. Então resolveu procurar o deus Brahma para se aconselhar.
Brahma sugeriu que ela colocasse sobre a cabeça do menino a máscara de um animal, pois assim muitas pessoas não iriam reconhecê-lo.
Parvati perguntou a Brahma qual era o animal mais sábio que existia. Ele respondeu que era o elefante. Então, ela lhe perguntou qual era o mais generoso?  Mais uma vez Brahma respondeu que era o elefante.
Convencida, Parvati colocou sobre a cabeça do seu filho uma enorme máscara de elefante.
É por isso que até hoje só as pessoas de coração puro conseguem perceber que, atrás daquela máscara, existe um menino muito especial, que pode ofertar muita sabedoria e prosperidade a quem conseguir enxergá-lo!

  http://www.yogacomhistorias.com.br/2009/website/exibe_txt.asp?titulo=dicas&conteudo_txt=815

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A DEUSA LAKSHMI


Eu recorro a ti, Lakṣmī por abrigo neste mundo,
Tu que és bela como a Lua, brilhando intensamente,
Que és adorada até mesmo pelos deuses,
Que és altamente magnânima, bela como o lótus.
Que minhas desgraças pereçam! Eu me rendo a ti,
Ó tu, que és resplandecente como o Sol!
(RigVeda, Shri Sukta, 5-6)
Deusa Lakshmi
Lakṣmī (ou Laxmi) ou Mahā-Lakṣmī é uma divindade feminina e aparece na tradição indiana como a esposa do deva Vishnu, o sustentador do universo. Ela é a personificação da beleza, da fartura, da generosidade e principalmente da riqueza e da fortuna. A deusa é sempre invocada pedindo amor, fartura, riqueza e poder. É considerada por alguns como o principal símbolo da potência feminina, sendo reconhecida por sua eterna juventude e beleza.
Pode ser vista sentada sobre uma flor de lótus, ou segurando flores de lótus nas mãos, e um cântaro de onde jorram moedas de ouro. Geralmente associa-se a Lakṣmī o símbolo da suástica, que na tradição indiana é um símbolo positivo, representando vitória e sucesso. Apadma é um outro nome dado a Lakṣmī, quando ela aparece ou é representada sem o lótus, ao sair do Oceano de leite quando no momento de sua criação.
Svastika, símbolo hindu auspicioso
Enquanto manifestação da grande deusa como uma força cósmica, ela pode ser uma divindade de dinamismo irresistível e poder temível. Este é um disfarce da doadora gentil e beneficente dos desejos dos devotos, como as divindades femininas beneficentes da Índia apareceram pela primeira vez. Este papel da deusa como alguém que cumpre os desejos se manteve com força duradoura. Na antiga coleção de hinos sagrados conhecidos como Vedas, este aspecto da deusa já se manifestava.
A deusa Lakṣmī, também é conhecida como Śrī (a Radiante), é personificada não somente como a deusa da fortuna e riqueza, mas também como uma encarnação da graça, beleza e encanto. Ela é adorada como uma deusa que concede a prosperidade ao mundo, bem como a libertação do ciclo de nascimentos e morte.
A adoração de Lakṣmī provavelmente remonta aos cultos da fertilidade pré-históricos da antiga civilização do Vale do Indo. Até o final do segundo milênio a.C., seus primeiros hinos registrados aparecem no Rig Veda, e são dedicados a deusa Śrī – o “Śrī Sūkta”, com 15 estrofes. Este hino é considerado um apêndice ou Khila do Rig Veda.Veja mais informações nesta página.
Swami Krishnananda, da Divine Life Society, diz que “esse hino do Veda traz muitos benefícios, especialmente quando recitado às sextas-feiras, juntamente com o culto formal da Deusa, para a abundância, paz e prosperidade em toda a volta”. A partir da época das Upanishads e dos Puranas, a deusa Śrī passou também a ser chamada de deusa Lakṣmī. Nos séculos incontáveis desde então, “Śrī-Lakṣmī” foi adorada como a deusa da riqueza, prosperidade, fertilidade e beleza.
MAHĀLAKṢMĪ DEVĪ
Mahā-Lakṣmī é uma das manifestações da Deusa Lakṣmī, que preside uma parte do episódio contado no Devī Māhātmya. Aqui, ela é descrita como Devī em sua forma universal como Shakti (a Poderosa). A manifestação de Devī como matadora do demônio-búfalo Mahishasura se dá pela refulgência de todos os deuses. A Deusa é descrita com 18 objetos: japa-mala (rosário), machado, maça, seta, raio, lótus, arco, pote de água, bastão, lança, espada, escudo, concha, sino, copo de vinho, tridente, laço e o disco (Sudarsana). Ela tem uma pele de cor coral e está sentada sobre uma flor de lótus. Ela é conhecida como Ashta Dasa Bhuja MahāLakṣmī, como possuindo 8 manifestações.
Ela também é vista em duas formas principais, Bhu-Devī (a deusa da Terra) e Śrī-Devī, ambas de cada lado do Sri Venkateshwara ou Vishnu. Bhu-Devī é a representação da totalidade do mundo material ou da energia, chamada Aparam Prakritī, em que ela é chamada de Mãe Terra. Śrī-Devī é o aspecto sutil ou espiritual. As pessoas estão enganadas se pensarem que elas são seres distintos, elas são um, isto é, Lakṣmī. 
Deusa indiana Lakshmi 
A presença de MahāLakṣmī é também encontrada no coração no Senhor Vishnu. Lakṣmī é a personificação do amor, pelo qual a devoção à divindade ou Bhakti flui. Lakṣmī desempenha um papel especial como a mediadora entre seu marido o Senhor Vishnu e seus devotos. Enquanto Vishnu é muitas vezes concebido como muito severo em algumas histórias, Lakṣmī representa uma figura mais suave, uma mãe calorosa e acessível que voluntariamente intervém em beneficio dos devotos. Ao pedir para Vishnu uma graça, os hindus muitas vezes aproximam-se dele através da presença intermediária dela. 
Ela também é a personificação da realização espiritual. Lakṣmī é a personificação da energia espiritual superior do divino feminino, sendo uma das principais formas de Adi Parashakti, que purifica, fortalece e eleva o indivíduo. Ela é considerada a Mãe do Universo, devido aos seus sentimentos maternais e por ser a consorte de Narayana. Ela é a Adi Shakti incorporando e manifestando o Sattva guna (o poder luminoso), e é só por causa de sua presença, a presença de Sattva guna, que Vishnu é capaz de preservar o universo. Sem Maa MahāLakṣmī, Vishnu não se manifestaria.
Em um conto existente no Shrimad Devī Bhagavata Purana, é mencionado que o poder da Deusa é tal que, assim que ela amaldiçoou Narayana, sua cabeça caiu. Esse é o grande poder de Devī, a mãe do universo. Ela é a força abrangente onipresente, onipotente e eterna. Diz-se no Shrimad Devī Bhagvata Purana que Maa Adi Shakti criou Shiva, Vishnu e Brahma. Ela comanda a manifestação dessas divindades. Sem ela, Vishnu perderia seu poder de preservar, visto ser ela a fonte de seu poder. Ela também é a Deusa Bhuvaneshwari, considerada a senhora do universo.
A ICONOGRAFIA DE LAKṢMĪ DEVĪ
Lakshmi com elefantes
Lakṣmī é normalmente representada vestindo um bonito sári vermelho ricamente bordado em ouro, com encantadoras jóias, e com moedas de ouro jorrando de suas mãos ou de um jarro. Ela é muitas vezes acompanhada por elefantes, simbolizando seu poder de conferir real poder e legitimidade, e também sugerindo sua relação especial com o senhor Ganesha/Ganapati. Lakṣmī muitas vezes carrega um pote cheio, sugerindo novamente abundância; ela está quase sempre rodeada por água corrente, indicando a fertilidade e a força que dá vida e que é o alimento da Terra; ela sempre carrega um lótus em duas de suas mãos, estando ao mesmo tempo em pé ou sentada sobre uma flor de lótus.
Deusa hindu Lakshmi
Em relação com sua forte associação com o lótus, o estudioso David Kinsley observa, “Śrī Lakṣmī assim sugere mais que os poderes fertilizantes do solo úmido e os poderes misteriosos de crescimento. Ela sugere uma perfeição ou estado de refinamento que transcende o mundo material”.  Na verdade, eu escolhi a imagem acima – com sua falta incomum de adorno material – justamente porque parece enfatizar aspectos transcendentes raramente discutidos sobre Lakṣmī.
No hinduísmo tardio, Lakṣmī veio a ser concebida em primeiro lugar como esposa volúvel (pense na fugacidade da boa sorte) de uma variedade de deuses, incluindo Soma, Dharma, Indra, e até mesmo o deus Yaksha Kubera, senhor das riquezas – antes de finalmente se estabelecer na mitologia hindu tradicional como a leal consorte de Vishnu.  E como a esposa de Vishnu, Lakṣmī é também a esposa de todos os avatares de Vishnu. Assim, os Vaishnavas tendem a vê-la tanto como Radha, companheira de Krishna, quanto Sita, com Rama. 
A maioria das representações Vaishnavas apresentam Lakṣmī como submissa e subordinada a Vishnu, mas pontos de vista mais sofisticados a concebem como igual e não diferente dele, como expresso na figura de Lakṣmī-Narayana, a forma andrógina fundida de Vishnu (lado direito) e Lakṣmī (lado esquerdo), expressando essencialmente as mesmas verdades contidas na fusão de Shiva-Parvati na figura de Ardhanarisvara.
Uma fusão de Lakshmi com Vishnu
A ADORAÇÃO DE LAKṢMĪ

Há inúmeros hinos (shlokas) em louvor de Lakṣmī. Algumas das orações mais famosas para seu culto são o “Śrī MahāLakṣmī Ashtakam”, o “Śrī Lakṣmī Sahasaranama Stotra” de Sanathkumara, o “Śrī Stuti” de Śrī Vedanta Desikar, “Śrī Lakṣmī Stuti” de Indra, o “Śrī Kanakadhara Stotra” por Śrī Aadhi Shankaracharya, “Śrī Chatusloki” de Śrī Yamunacharya, o “Śrī Lakṣmī Sloka” atribuído a Bhagavan Śrī Hari Swamiji, bem como o  “Śrī Sukta” que está contido nos Vedas. O famoso Lakṣmī Gayatri Sloka é este:
Lakshmi Gayatri
ōm mahādevyai ca vidmahe viṣṇupatnī ca dhīmahi
tanno lakṣmīḥ pracodayāt
"Saudamos a Grande Deusa, meditamos sobre a consorte de Vishnu. Que Lakshmi nos conduza para a grande meta."
OM shantih
ōṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ
"Om. Que haja paz, paz, paz."
O Lakṣmī Gayatri é uma poderosa oração contida no Śrī Sukta vêdico. Quando cantado todos os dias, 108 vezes, permite a obtenção imediata da graça e bênçãos da Deusa.
Embora Lakṣmī seja adorada como a deusa da fortuna, quando ela é cultuada com Narayana, o adorador é abençoado, não só com a riqueza, mas também com paz e prosperidade. Juntos eles podem ser cultuados em combinações distintas, como Lakṣmī-Narayana, Narasimha-Lakṣmī, Rama-Sita, Radha-Krishna, ou Vithal-Rukmini.
Outra forma comum de adoração realizada por devotos, é realizada em suas respectivas casas, sendo realizado após o banho de purificação matinal, e utilizando-se de medidas de arroz com casca e com a realização de diferentes bolos de arroz e Khiri (sopa de arroz preparado com leite e açúcar), que são preparados em todos os lares e oferecidos à divindade, sendo depois comidos por todos.
Divali
O festival mais importante em que Lakṣmī é adorada atualmente é o Divali, ou Dipavali, o “Festival das Luzes”, realizado a cada outono na noite mais escura do ano. O foco do festival é a prosperidade, pois se entende que não pode haver riqueza ou sucesso sem a presença e graça de Lakṣmī; ela é cultuada em áreas rurais para a prosperidade das colheitas, ou simplesmente para trazer alimento nas comunidades urbanas; e para boa sorte ao lado de Ganesha/Ganapati, a outra principal divindade do Dipavali. Lakṣmī concede riquezas e boa sorte.
Um dos seus mantras para estas ocasiões é:
Mantra para Lakshmi
oṃ śrīṃ hrīṃ klīṃ 
tribhuvana mahālakṣmyai 
asmākam dāridrya 
nāśaya pracura dhana 
dehi dehi klīṃ hrīṃ śrīṃ oṃ
MANIFESTAÇÕES DA DEUSA
Há um grupo de oito deusas secundárias, chamadas coletivamente de Aṣṭalakṣmī, ou oito manifestações de Lakṣmī. Elas presidem oito fontes de riqueza e, portanto, representam os poderes de Shri-Lakṣmī.
As descrições sobre esse grupo de Ashta Lakṣmī diferem muito, não há uniformidade dos nomes das Ashta Lakṣmī nos textos sagrados hindus. Há milhares de manifestações de MahāLakṣmī e sem ela nada neste mundo poderia sobreviver, sendo ela a base de toda a criação. Sem a sua graça, não haveria nada para comer, não haveria ar para respirar, etc. 
Ashta-Lakshmi
Uma descrição usual do grupo de Ashta Lakṣmī é esta:
• Santāna Lakṣmī – Ela protege toda a riqueza da família, principalmente as crianças.
• Gaja Lakṣmī – Ela surge como Rainha Universal, com seus dois elefantes que atendem todas as preces e orações.
• Vidyā Lakṣmī – Ela encerra a totalidade do conhecimento, tanto material quanto espiritual.
• Dhānya Lakṣmī – Ela alimenta o mundo, nos concedendo a riqueza da boa colheita dos grãos.
• Ādi Lakṣmī – Ela é a Mãe Divina e fonte de todo o poder de Vishnu.
• Vijaya Lakṣmī – Ela nos concede a vitória sobre obstáculos e problemas (vitória também no trabalho e aspectos legais).
• Dhana Lakṣmī – Ela é a doadora do todo tipo de riqueza.
• Dhairya Lakṣmī – Ela nos dá força e coragem para enfrentarmos qualquer sacrifício.
Na verdade, de acordo com algumas tradições, Mahā-Lakṣmī preside dezoito formas de riqueza, dez das quais são os oito grandes poderes ou perfeições (siddhis) chamados Ashta-Siddhis, além do conhecimento espiritual ou Jñana, e o ensino ou transmissão do conhecimento espiritual para o mundo inteiro, sem qualquer distinção de classe.
Além dos Ashta siddhis, Jñana e transmissão de Jñana, Mahā-Lakṣmī também é conhecida por presidir 16 formas de riqueza mundana, que são as seguintes: fama; conhecimento; coragem e força; vitória; bons filhos; valor; ouro, jóias e outros objetos de valor; grãos em abundância; felicidade; bem-aventurança; inteligência; beleza; objetivo superior (pensamento elevado e ensino da meditação); moralidade e ética; boa saúde; vida longa. 
UMA DESCRIÇÃO MITOLÓGICA DE LAKṢMĪ
Há diferentes versões sobre a origem da deusa Lakṣmī, que teria surgido no Oceano de Leite. Em um desses mitos, os deuses (devas) e os demônios (asuras) se encontravam doentes e procuravam um remédio para se curar; em outra versão, eles eram mortais e estavam buscando pelo Amrita, o néctar divino que concede a imortalidade. Este só poderia ser obtido por meio da batedura do Oceano de Leite. Embora geralmente sejam inimigos, os devas e asuras decidem se unir para bater o Oceano de Leite juntos. A batedura do oceano começou com os devas de um lado e os asuras do outro. Vishnu assumiu a forma de Kurma, a tartaruga, e uma montanha foi colocada sobre seu casco, como um centro de rotação. Vasuki, a grande serpente, foi enrolada ao redor da montanha e foi usada como uma corda para girar a montanha e bater o Oceano de Leite. Uma série de objetos divinos começou a surgir durante a agitação do oceano. Junto com eles surgiu a deusa Lakṣmī, a filha do rei do oceano de leite (Varuna), e, segundo alguns, a filha de Kubera. O último a sair foi o amrita. O avatar Vishnu então assumiu a forma de uma linda donzela para distrair os asuras e deu o amrita (a imortalidade) aos devas. 
O nascimento de Lakshmi, no Oceano de Leite
Diz-se que Lakṣmī surgiu do mar de leite, o oceano cósmico primordial, tendo um lótus vermelho em sua mão. Cada membro da tríade divina, Brahma, Vishnu e Shiva (criador, preservador e destruidor respectivamente do universo) queria tê-la para si mesmo. A reivindicação de Shiva foi recusada porque ele já tinha reivindicado a Lua, Brahma tinha Sarasvati, então Vishnu a reivindicou, e assim ela nasceu e renasceu como sua consorte durante todas as suas 10 encarnações.
Alguns textos dizem que Lakṣmī é a esposa do Dharma (que é a conduta correta ou virtuosa). Ela e várias outras deusas, as quais são personificações de certas qualidades auspiciosas, dizem terem sido dadas ao Dharma em casamento. Esta associação parece ter um significado simbólico, sendo uma lição para ensinar que através de uma vida virtuosa (realização do dharma) se obtém o bem-estar e a prosperidade (Lakṣmī).
A tradição também associa Lakṣmī com Kubera, o feio senhor das riquezas e chefe dos duendes (Yakshas). Os Yakshas são criaturas sobrenaturais que vivem fora dos limites da civilização. Sua conexão com Lakṣmī talvez brote do fato de que eles foram considerados notáveis por sua propensão para recolher, guardar e distribuir riquezas. Os Yakshas também são símbolos da fecundidade. As Yakshinis (Yakshas femininos) são representadas frequentemente em esculturas encontradas em vários templos. São imagens de mulheres de seios fartos e ancas largas com bocas generosas, inclinando-se sedutoramente contra árvores. É bastante natural a identificação de Shri, a deusa que personifica a riqueza e o poder potente do crescimento, com os Yakshas. Ela, assim como eles, envolve, e revela-se na fecundidade irreprimível da vida vegetal, e também em sua associação com o lótus.
Yakshini - Lakshmi
Uma outra associação é estabelecida entre Lakṣmī e o deva Indra. Indra é tradicionalmente conhecido como o rei dos deuses, o deva principal nos tempos vêdicos, sendo geralmente descrito como um rei celestial. É, portanto, apropriado para Shri-Lakṣmī ser associada com ele como sua esposa ou consorte. Nesses mitos ela aparece como a personificação da autoridade real, como um ser cuja presença é essencial para o efetivo poder real, empunhando a criação da prosperidade real.
Vários mitos desse gênero associam Shri-Lakṣmī ora com um poderoso governante, ora com outro. Há histórias em que ela se torna a consorte do demônio chamado Bali. A lenda em questão deixa clara a relação entre Lakṣmī e reis vitoriosos. De acordo com essa lenda, Bali derrota Indra. Lakṣmī é atraída pela bravura e vitórias de Bali e se une a ele. A associação com a propícia deusa, cheia de virtudes, permite a Bali reinar sobre os três mundos (terra, céu e atmosfera) com a virtude, e sob seu governo há prosperidade ao redor. Depois, os deuses destronados conseguiram enganar Bali, fazendo com que Shri-Lakṣmī se separasse dele, deixando-o sem brilho e sem poder. Junto com Lakṣmī, as seguintes qualidades se afastam de Bali: boa conduta, comportamento virtuoso, verdade, atividade e força. A associação de Lakṣmī com tantas e diferentes divindades masculinas, revela a notória fugacidade da boa sorte, e lhe rendeu uma reputação de instabilidade e inconstância. Diz-se que ela é tão instável, que só se associa com Vishnu porque é atraída por suas muitas formas (avatares). E assim, ela é também conhecida como Chanchala, ou “a inquieta”.
Os seus devotos se preocupam com sua notória inconstância, pois não querem perder a prosperidade. Isso os levou a conceber inúmeras e engenhosas estratégias para “reter” Lakṣmī, e consequentemente a prosperidade em seus estabelecimentos. Uma dessas práticas consiste em oferecer para as imagens de Lakṣmī apenas o pior tecido como vastra (vestuário) porque, dizem eles “É muito mais fácil a Deusa Lakṣmī abandonar nossas casas vestida de amplas dobras de tecido do que estando parcamente vestida, com o mínimo de tecido que oferecemos a ela como vestimenta”.
Lakshmi devi
Em um sentido mitológico, sua inconstância começou a mudar quando ela passou a ser associada apenas com Vishnu. Nessa associação ela ficou estável e passou a ser representada como a firme, obediente e leal esposa, que promete se reunir com seu marido em todas as suas próximas vidas.
Fisicamente, a Deusa Lakṣmī é descrita como uma mulher com quatro braços, sentada em um lótus, vestida com roupas finas e jóias preciosas. Ela tem um semblante benigno, está em sua plena juventude e tem também uma aparência maternal. A característica mais marcante da iconografia de Lakṣmī é sua associação persistente com o lótus. O significado da flor de lótus em relação a Shri-Lakṣmī se refere à pureza e ao poder espiritual. Enraizada na lama, mas desabrochando acima da água, não estando contaminado pelo lodo, o lótus representa a perfeição espiritual e autoridade. 
Além disso, o assento de lótus é um motivo comum na iconografia hindu e budista. Os deuses e deusas, os Buddhas e Bodhisattvas, geralmente se assentam ou ficam em pé sobre uma flor de lótus, o que sugere a sua autoridade espiritual. Estar sentado sobre uma ou outra forma associada ao lótus sugere que o ser em questão – deidade, Buda, ou ser humano – transcendeu as limitações do mundo finito (como se estivesse acima da lama da existência) e flutua livremente em uma esfera de pureza e espiritualidade. Shri-Lakṣmī, associada ao lótus, sugere mais do que os poderes fertilizantes do solo úmido e os poderes misteriosos do crescimento. Ela sugere uma perfeição ou estado de refinamento que transcende o mundo material. Ela está associada não só com a autoridade real, mas também com autoridade espiritual. O lótus e a deusa Lakṣmī por associação, representam o pleno desabrochar da vida orgânica e da vida espiritual. Por ser intimamente associada com o lótus, muitos de seus epítetos são ligados à flor, tais como:
• Padma: A do lótus.
• Kamala: Moradora do lótus.
• Padmapriya: Aquela que gosta de flores de lótus.
• Padmamaladhara Devī: A deusa que usa uma guirlanda de flores de lótus.
• Padmamukhi: Aquela cujo rosto é como uma flor de lótus.
• Padmakshi: Aquela cujos olhos são como uma flor de lótus.
• Padmahasta: Aquela que segura uma flor de lótus.
• Padmasundari: Aquela que é tão bonita como uma flor de lótus.
Outros de seus nomes mais conhecidos são:
• Vishnupriya: Aquela que é o amada de Vishnu.
• Ulkavahini: Aquela que monta uma coruja.
Seus outros nomes incluem: Manushri, Chakrika, Kamalika, Aishvarya, Lalima, Kalyani, Nandika, Rujula, Vaishnavi, Samruddhi, Narayani, Bhargavi, Sridevī, Chanchala, Jalaja, Madhavi, Sujata, Shreya. Ela também é conhecida como Jaganmatha (“Mãe do Universo”).
Lakshmi e sua coruja (Uluka)
Nenhuma descrição da deusa Lakṣmī pode ser completa sem uma menção ao seu veículo tradicional, a coruja (Uluka). A coruja é um pássaro que dorme durante o dia e espreita durante a noite. Simboliza a capacidade de ver aquilo que as outras pessoas têm dificuldade de ver, estando assim associada à sabedoria. O Bhagavad Gita (II.69) afirma: “Aquilo que é noite para todos os seres é o despertar para aquele que atingiu a igualdade; e o tempo no qual todos os seres despertam é noite para o sábio que contempla.”
YANTRA
Um Yantra ou diagrama místico é feito geralmente em cobre, prata, ou em outros metais considerados sagrados e banhados com prata ou ouro. É utilizado em práticas simples através das quais se pode alcançar e cumprir seus desejos espirituais ou materiais. Diz-se que as divindades residem nos Yantras e ao executar o respectivo Puja ou ritual do Yantra, pode-se, por exemplo, remover os efeitos astrológicos maléficos, remover negatividades, aumentar o fluxo de influências positivas, etc.
O diagrama místico, ou Yantra, de Maha Lakshmi
Ao fazer um Puja ou prática com os Yantras, por conseguinte, se obtêm grandes benefícios. Os procedimentos a serem seguidos consistem em energizar o Yantra dedicado a Lakṣmī:
• Primeiro purifique seu corpo e fique com uma mente clara e positiva.
• Encontre um lugar no chão de frente para o leste, onde você não será perturbado.
• Acenda o incenso ou diya (lamparina) – não importa a quantidade.
• Coloque uma flor e uma fruta fresca no altar.
• Coloque o Yantra no altar, ou local onde você possa vê-lo.
• Em seguida, purifique-se cantando com devoção 21 vezes o seguinte mantra:
    Aum Shri Mahalakymaye Namah
• Feche os olhos e concentre-se na divindade. Com toda sinceridade, peça à divindade para lhe conceder os seus desejos, por exemplo, iluminação, libertação espiritual, remoção dos obstáculos, etc.
Embora a deusa possa conceder iluminação e libertação, geralmente as pessoas utilizam o Yantra de Lakṣmī para obtenção de prosperidade (material), sabedoria, fortuna, fertilidade, generosidade, coragem, boa sorte, proteção de todos os tipos de dores, miséria e problemas relacionados com finanças.
A prática diária do mantra indicado acima ajuda a atingir o Siddhi. Siddhi é geralmente definido como sendo um poder mágico ou espiritual, para o controle de si mesmo e das forças da natureza, mas Siddhi também significa perfeição ou pureza no que se busca. Um siddha é um ser perfeito, que alcançou a realização espiritual.
Outro mantra utilizado para recitação junto com esse Yantra é este:
Om Shrim Hrim Shrim Kamale Kamalaleyi Prasid Prasid
Om Shrim Hrim Shrim Mahalakshmiyei Namaha
Faça 108 repetições, correspondendo a uma volta completa de um japa-mala (rosário indiano). Isso leva aproximadamente 40 minutos. O horário da manhã é o melhor momento para cantar o mantra, principalmente após o banho. Mas também pode ser realizado à noite, antes do jantar, ou 3 horas após o jantar.
O mantra indicado acima está associado a um dos nomes de Lakṣmī, que é Kamala, que será explicado a seguir.
KAMALA – ABORDAGEM SHAKTA DE LAKṢMĪ
Lakshmi - Kamala
Ela tem uma bonita pele dourada. Ela está sendo banhada por quatro elefantes grandes que derramam potes de néctar sobre ela.
Em suas quatro mãos ela segura duas flores de lótus e faz os sinais de concessão bênçãos e garantindo destemor.
Ela usa uma coroa resplandecente e um vestido de seda. Eu presto reverências a ela, que esta assentada sobre uma flor de lótus em uma postura de lótus.
Kamala é uma das dez Mahāvidyas, as formas mais importantes da Deusa no Tantrismo Shakta. Também denominada por Maa Kamla. Kamala significa lótus. Tal como acontece com todas as Mahāvidyas, Kamala é uma forma independente da Deusa: é ela, e não seu consorte, que merece atenção e adoração. Vishnu quase nunca é mencionado em relação à Kamala.
A concepção de Lakṣmī como Suprema, como divindade independente, está mais restrita à escola Pancharatra – uma espécie de sub-seita Tântrica do Vaishnavismo, que propõe uma abordagem decididamente Shakta de Lakṣmī, ou seja, uma em que ela é elevada ao status de Divindade Suprema. Kinsley explica:
“No cenário da criação no Pancharatra, Vishnu permanece quase totalmente inativo, relegando o processo criativo para Lakṣmī. Somente Lakṣmī age, e a impressão em toda a cosmogonia é a de que ela age de forma independente de Vishnu (embora se afirme que ela age de acordo com seus desejos). O efeito prático é que, [Vishnu] torna-se tão distante que Lakṣmī domina toda a visão Pancharatra do divino. Na realidade, ela adquire a posição de divino Princípio Supremo, a realidade subjacente no qual tudo repousa, que permeia toda a criação como vontade, vitalidade e consciência”.
A VERDADEIRA NATUREZA DE LAKṢMĪ
O texto Pancharatra mais importante é o Lakṣmī Tantra. Esse texto, escrito em torno do século X d.C., glorifica a deusa Lakṣmī como a essência de toda a realidade. No capítulo 14 desta obra, a própria deusa Śrī afirma:
Deusa Lakshmi
“O deus Vasudeva [Vishnu] é o Brahman absoluto. Sua essência é o conhecimento, é indiferenciado em relação ao espaço, ao tempo e às outras [características], é puro e desprovido de qualidades [gunas]. Sua natureza é a beatitude. Ele é sempre imutável, possui seis atributos divinos, não envelhece, é eterno. Eu sou seu Poder [Shakti] supremo, sou a natureza do seu Eu [atmattva], sou eterna e constante. Meu poder de ação [vyaparashakti] é caracterizado por minha vontade de criar [sisriksha]. Com uma fração minúscula de mim mesma, dedico-me voluntariamente a criar, separando-me em duas [partes], uma das quais é a consciência [cetana] e a outra é o objeto de seu conhecimento [cetya]. Desses dois, cetana é o meu poder de pensamento [citshakti]. De fato, a consciência, que sou eu, se desdobra tanto os seres sensíveis quanto os objetos insensíveis. Minha forma real, realmente, é a consciência absolutamente pura e soberana. Como o caldo da cana de açúcar, ela [a consciência] se torna mais grosseira pelo contato com os objetos materiais. No processo de conhecer os objetos materiais, estes adquirem a natureza da consciência. Assim como o combustível, quando aceso, é engolfado pelo fogo, da mesma forma os objetos [materiais] que são penetrados pela consciência adotam sua natureza.” 
Assim, a deusa Lakṣmī é apresentada neste Tantra como o Poder supremo (Shakti) e a essência de tudo o que existe (inclusive do próprio Vishnu), tanto dos objetos materiais quanto da consciência, sendo sua essência, no entanto, não-material. O Lakṣmī Tantra – entre outras coisas – nos ensina que Lakṣmī tanto cria como está incorporada em todo o Universo (visível e invisível) a partir de uma fração minúscula de si própria. Lakṣmī aqui executa todos os atos que no tradicional hinduísmo são atributos aos grandes deuses masculinos, Brahma, Vishnu e Shiva. Como a própria Lakṣmī afirma:
“Inerente ao princípio da Existência, manifestado ou não manifestado, eu sou o tempo todo o incitador, a potência em todas as coisas. Eu manifesto a mim mesma como a Criação, eu ocupo a mim mesma com a atividade quando a Criação começa a funcionar, e eu finalmente me dissolvo no tempo da destruição. Somente eu envio a Criação adiante para novamente destruí-la. Eu absolvo os pecados do bom. Como a Mãe Terra para todos os seres, eu perdoarei todos os seus pecados. Eu sou a Doadora de Tudo. Eu sou o próprio processo de pensamento e estou contida em tudo”. 
Mahavidya Bhuvaneshvari
No Lakṣmī Tantra, Lakṣmī (e não Vishnu) é o criador, mantenedor e destruidor; Ela é o único objeto de devoção e meditação; Ela é a dispensadora de graça; Ela é a doadora da libertação (50,131-132). E ainda, por tudo isso, ela mantém sua associação fundamental com abundância, fertilidade e bem-estar e novamente, como Lajja Gauri, Ela é a “seiva da vida”, que revitaliza toda a Criação, mas aqui ela também disse ser a suprema “seiva da consciência” que está por trás do mundo manifesto inteiro (50,110).
SIGNIFICADO DE KAMALA
Kamala como deusa do lótus também representa o desenvolvimento da pessoa, mantendo os sete chakras abertos (os chakras ou rodas são simbolizados por lótus). Ela sustenta a sadhana, ela é considerada a Deusa do progresso.
MANTRA DE KAMALA
O bija [semente] mantra de Kamala é um I prolongado. Em sânscrito transliterado, este seria um Ī longo, representado com a linha por cima. Acrescentando um M após o I, forma o som ĪM, que mostra a sua energia na forma bija completa. Este é considerado shakta bija primordial, e este mesmo som aparece em vários bija mantras da Deusa, como Shrīm, Hrīm, Krīm, etc.
Kamala Devi
SADHANA DE KAMALA
A prática para invocar e se unir à deusa Kamala, ou a Mahalakshmi, é feita da seguinte forma: Inicialmente, estabeleça a sua resolução, ou sankalpa (resolução interna / estado mental apropriado). Depois repita um dos dois mantras abaixo, utilizando um japa-mala de rudraksha (uma semente indiana) com sete faces, ou então com contas feitas de madeira de Tulsi.

Cante o mantra:
Om Shrim Klim Mahalakshmiyai Namah

Ou então, cante este outro mantra:
Om Shrim Hrim Shrim Kamale Kamalalayai Prasid Prasid Shrim Hrim Shrim
Om Mahalakshmiyai Namah

Esta prática lhe permitirá entrar em sintonia com a deusa 
Lakṣmī.

FONTES CONSULTADAS:
KINSLEY, David. Hindu Goddesses: Vision of the Divine Feminine in the Hindu Religious Traditions.
COBURN, Thomas B. Encountering the Goddess: a translation of the Devi-Mahatmya and a study of its interpretation. 
Mahavidya Kamala
Você pode baixar uma versão em PDF desta página utilizando este link:
A-Deusa-Lakshmi.pdf
separador 

http://www.shri-yoga-devi.org/Blog/2013-03-Deusa-Lakshmi.html

terça-feira, 25 de outubro de 2011

A LENDA DE KAMAKHYA



Kamakhya é um complexo de dez templos que representam outras tantas formas da deusa Parvati, companheira de Xiva e situa-se em Nilachal, a montanha azul, perto de Guwahati a capital do Assam. Eis a lenda:
A consorte de Xiva, Parvati, travou uma discussão conjugal
a propósito da festa que seu pai ia dar nos próximos dias
e para a qual Xiva não tinha sido convidado.
Dizia Parvati que não precisava de convite para assistir
a um sacrifício a efectuar na casa de seu pai
e que Xiva, sendo seu marido, devia acompanhá-la.
Orgulhoso, Xiva insistia que sem convite nada feito
e que proibia a sua mulher de ir e que aquilo era uma afronta
do sogro e que era assunto encerrado.
Parvati repetia que com ou sem autorização do marido iria
à festa de qualquer maneira ... e que não que não vais ... e que sim que vou, tu não sabes do que eu sou capaz e a discussão subindo de tom e as posições extremando-se e Parvati, como derradeiro argumento, numa dança diabólica em torno de Xiva
assume sucessivamente dez formas terríficas de outras tantas deusas.
O Ser Supremo espantado e confuso com o imenso poder da sua esposa, acedeu em deixá-la ir sozinha à festa de seu pai.
A festa decorreu animada mas muita gente presente criticou
violentamente Xiva pela sua atitude de distância e soberba
em relação aos outros deuses assim como a sua mania
da superioridade. Isto perturbou mortalmente Parvati
que não admitindo tão violentas críticas ao seu marido
na ausência deste, lançou-se na fogueira do sacrifício,
imolando-se pelo fogo. A versão tântrica da história conta que ela
se auto-aniquilou pelo poder do yoga.
Xiva, que estava em meditação profunda,
como era aliás seu costume, sentiu uma enorme perturbação e,
Omnisciente, percebeu de imediato o que se tinha passado.
Louco de raiva e de dor, transportou o cadáver
da sua amada pelo mundo fora destruindo tudo à sua passagem.
Os deuses temeram pelo fim do Universo e,
reunindo um conselho, nomearam Vixnu para pôr cobro
a tão desvairada destruição. Vixnu perseguiu Xiva e,
quando o encontrou, usou o seu terrível disco
para despedaçar o corpo de Parvati em 51 pedaços
que se espalharam pela terra da Índia.
Desde então, esses 51 lugares são outros tantos xakti pithas,
locais de culto da deusa.
No Assam, em Kamakhya nas montanhas azuis,
caiu o yoni (vagina) a parte mais sagrada da deusa da procriação,
a fonte da vida. Esta é a lenda de Kamakhya, aquela cujo nome é desejo, ou Kamarupa, a que tem a forma do amor. 

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A DEUSA DO AMOR E DA BELEZA



A tradição indiana é extremamente rica em relação a deusas. Seus nomes e manifestações são tão variados que qualquer vila ou escritura, qualquer arte e artista criam suas próprias imagens dela. Algumas vezes ela é a consorte, outras uma deusa da fertilidade; às vezes ela é benevolente mas ela também pode ser horrível e má. A tradição é cheia principalmente de deusas associadas a Shiva. Mas a mais amada e celebrada artisticamente é Parvati. Ao contrário de Durga e Kali, que assumiram seus status religiosos independentes no panteão Hindu e são adoradas e veneradas ritualmente, Parvati tem atenção maior de poetas e pintores, músicos e dançarinos.


Seus aspectos são variados, seus atributos são múltiplos e muitos são seus nomes. De todos os seres míticos no panteão Hindu ela é talvez a mais amada e sem dúvida a que mais doa seu amor. Nela temos a verdadeira celebração da feminilidade Hindu. Com uma beleza sensual incomparável, seu dom não é somente físico mas espiritual, não narcisístico mas sim um oferecimento. Nela pode-se dizer que reside a grande personificação da expressão Hindu, assim como o conceito de beleza.


Na mitologia clássica, a razão de ser do nascimento de Parvati é atrair Shiva para o casamento e por conseqüência ao ciclo maior da vida casada da qual ele está afastado como um asceta solitário, vivendo nos ermos das montanhas. A deusa representa o pólo complementar ao asceta. Em seu papel de donzela, esposa, e depois como mãe, ela amplia o círculo de atividade de Shiva ao reino do lar, onde sua energia armazenada é liberada de maneiras positivas.


O nome de Parvati, que significa “ela que reside nas montanhas” ou “ela que é da montanha”, identifica-a com regiões montanhosas. Ela era a filha de Himavat (Senhor das montanhas) e sua rainha Mena. Ela é geralmente descrita como sendo muito bonita. Mostrou um interesse forte por Shiva desde o começo, repetindo seu nome para si mesma e aprazendo-se ao ouvir sobre suas aparições e proezas. Enquanto ela é ainda uma criança, um sábio vai a sua casa e após examinar as marcas em seu corpo prediz que ela se casará com um yogi nu. Quando fica claro que ela está destinada a se casar com Shiva, seus pais sentem-se extremamente honrados. Parvati, é claro, também fica radiante.


Em uma ocasião, enquanto Parvati está tentando chamar a atenção de Shiva para o casamento, Kama é enviado pelos deuses para despertar em Shiva o desejo. Quando ele atrai a atenção de Shiva com sons e cheiros de primavera, e tenta perturbar Shiva com suas armas intoxicantes, Shiva queima-o a cinzas com seu terceiro olho. Mas imperturbável em sua devoção, Parvati persiste em sua busca para ganhar Shiva como seu marido fazendo austeridades.


Uma das maneiras mais eficientes de conseguir o que se quer no hinduísmo tradicional é fazer tapas, “austeridades ascéticas”. Se você for persistente e heróico o suficiente, você irá gerar tanto calor que os deuses serão forçados a garantir-lhe qualquer desejo para salvar a si e o mundo de serem queimados. O método de Parvati para ganhar Shiva é portanto, uma estratégia comum para realizar seus desejos. É também apropriado para demonstrar a Shiva que ela pode competir com ele em seu próprio reino, que ela possui os recursos interiores, controle e coragem para se isolar do mundo e dominar completamente suas necessidade físicas. Fazendo tapas, Parvati abandona o mundo do lar e adentra o reino do mundo renunciante, chamado de mundo de Shiva. A maioria das versões do mito descreve-a superando todos os grandes sábios em suas austeridades. Ela faz todas as mortificações tradicionais, como sentar-se no meio de quatro fogueiras no meio do verão, expor-se aos elementos durante a estação das chuvas e durante o inverno, viver apenas de folhas ou ar, permanecer apoiada em uma perna por anos, etc. Até que ela acumulou tanto calor que os deuses ficaram incomodados e persuadiram Shiva a ceder ao pedido de Parvati, para que ela parasse seus esforços.


O casamento é devidamente arranjado e elaboradamente empreendido. A procissão do casamento de Shiva, que inclui a maioria do panteão Hindu, é descrita em detalhes. Um tema freqüente durante as preparações do casamento é a indignação de Mena quando ela finalmente vê Shiva pela primeira vez. Ela não pode acreditar que sua linda filha vai se casar com um indivíduo tão ultrajante; em algumas versões, Mena ameaça suicídio e desmaia quando dizem para ela que aquele ser esquisito na procissão de casamento é, na verdade, seu futuro genro.
Depois que os dois estão casados eles partem para o Monte Kailasha, a moradia favorita de Shiva, e mergulham completamente em flerte sexual, que continua ininterruptamente por um longo tempo. O deus do amor, Kama, é ressuscitado quando Shiva abraça Parvati e o suor do corpo dela mistura-se com as cinzas do deus queimado.


O amor dos dois é tão intenso que chacoalha o cosmos, e os deuses ficam assustados. Eles se aterrorizam com a idéia da criança que surgirá com a união de duas deidades tão poderosas. Eles temem os poderes extraordinários da criança. Então eles planejam interromper o ato de amor de Shiva e Parvati. Vishnu vai com seu séqüito de deuses a Kailasha e espera pacientemente do lado de fora dos aposentos de Shiva. Muitos anos se passaram e Shiva continuava trancado no quarto com Parvati. Vishnu falou com uma voz aguda e lamentosa e convenceu Shiva a sair e ouvir seu problema. Quando Shiva descuidou-se, Agni (Fogo) disfarçou-se de pombo e entrou no quarto de Shiva. Parvati percebeu imediatamente que sua privacidade havia sido violada. Shiva recolheu-se e uma gota de seu sêmen caiu no chão. Agni, na forma de pombo, comeu a gota de sêmen. Parvati no entanto ficou perturbada e com raiva pelos deuses terem se juntado e interrompido seus prazeres eróticos, e amaldiçoou-os dizendo que todas suas esposas ficariam estéreis. Ela estava irritada principalmente com Agni, por ter comido a semente de Shiva.


Quando Agni ficou impossibilitado de carregar a semente de fogo, ele foi para as margens do Ganga. Nesse momento, as esposas de sete sábios tinham decido para se banhar. Seis delas sentiram frio e foram na direção de Agni. Agni derrubou a semente e a semente entrou nas esposas e elas ficaram grávidas. Quando os sábios ficaram sabendo disso, eles advertiram suas esposas, que colocaram o embrião em um dos picos do Himalaia. Assim nasceu Kartikeya, uma criança resplandecente com seis cabeças. Shiva e Parvati ficaram deliciados com o nascimento de seu filho e isso somou muita alegria a Parvati, que havia desejado uma criança. Diz-se que, por afeição, de seus seios escorreu leite quando ela viu a criança pela primeira vez.


Os instintos maternais de Parvati foram, na verdade, as emoções mais poderosas na vida dela. Enquanto Shiva entusiasmava-se com seu gracejo romântico, a verdadeira mãe nela pedia por uma criança. Ela implorou a Shiva para gerar nela um filho e torna-la mãe mas o Shiva ascético não ouviu nada disso. Ela lembrou-o de que nenhum rito ancestral é feito para um homem que não tem descendentes. Shiva declarou que ele não tinha nenhuma vontade de ser um grahastha, chefe de família, pois isso traz restrições. Parvati ficou desolada e ao vê-la nesse estado Shiva puxou um fio de seu vestido vermelho, fez um filho e deu para ela. Parvati segurou-o junto ao seio e ele viveu. Ele sorria enquanto ele chupava seu leite e Parvati, agradecida, deu o filho a Shiva. Shiva ficou surpreso por Parvati ter soprado vida em uma criança feita de tecido mas avisou que o planeta Saturno não era auspicioso para essa criança e, enquanto pronunciava essas palavras, a cabeça da criança caiu no chão. Parvati ficou dominada pela tristeza. Shiva tentou, sem sucesso, colocar a cabeça de volta. Uma voz vinda do céu disse que somente a cabeça de alguém de frente para o norte grudaria na criança. Shiva mandou Nandi achar tal pessoa. Nandi logo achou o elefante de Indra, Airavat, deitado com sua cabeça de para o norte e começou a cortá-la. Indra interviu, mas Nandi foi bem sucedido, apesar de que na luta uma das presas do elefante tenha quebrado. Nandi levou a cabeça a Shiva e assim nasceu Ganesha. Os deuses celebraram o nascimento e Parvati ficou satisfeita.


Em um outro mito, Parvati tem uma tercira criança, Andhaka, e seu nascimento é narrado em uma lenda interessante. Brincando, Parvati fecha os olhos de Shiva com suas delicadas mãos e de repente a escuridão inundou o muno. As mãos da deusa foram embebidas no fluido de Shiva nascido da paixão, e quando aquecidas pelo calor do terceiro olho de Shiva, uma criança horrível cresceu, cega e repulsiva. Mas Parvati, leal a sua natureza, cuidou dessa criança com amor como cuidaria de qualquer outra. Mas, à medida que Andhaka cresceu, ele se tornou um demônio desejando ardentemente sua própria mãe, e foi morto por Shiva.


Na maioria do tempo, o casamento e a vida familiar de Shiva e Parvati é harmonioso, feliz e calmo. Os dois são geralmente retratados sentado em um abraço íntimo. Houve também diversos momentos de discussão filosófica entre os dois. Enquanto Shiva ensinava a parvati a doutrina do Vedanta, Parvati correspondia ensinando-o as doutrinas do Shankhya, porque se Shiva era o professor perfeito, Parvati, como yogini, não deixava por menos. Parvati estava constantemente ao lado de Shiva, encorajando, assistindo e participando de todas as suas atividades.


Uma parte importante da rotina diária de Shiva era a preparação de bhang, sua droga favorita. Parvati colhia as melhores folhas de bhang, amassava-as e filtrava a decocção em uma musselina bem limpa. Às vezes Parvati ajudava Shiva a fazer uma colcha que os manteria aquecidos nas noites frias do Kailasha. Outras vezes ela sentava-se e massageava os pés de seu amado enquanto Shiva reclinava-se embaixo de uma árvore. O maior prazer de Parvati era servir Shiva e fornecer tudo o que ele precisasse. Nada era mais importante para ela do que ser útil a seu amo, visando seu conforto e assegurando-se que ele não voltasse ao seu modo ascético solitário de auto-renúncia. Nessas atividades ela combinava os papéis de esposa cuidadosa e mãe afetuosa.


Mas Shiva e Parvati também brigam e discutem de vez em quando. Relatos bengalis de Shiva e Parvati geralmente descrevem Shiva como um marido irresponsável, maconheiro, que não pode cuidar de si mesmo. Parvati é retratada como a esposa sofredora, que freqüentemente reclama para sua mãe mas que sempre permanece imperturbável para seu marido.


Shiva também era passional em seu amor por Parvati. Entre os vários jogos que eles jogavam, o mais significante era o jogo de dados. Uma vez aconteceu que Parvati estava inicialmente perdendo para Shiva, mas então gradualmente a mesa virou e Shiva perdeu tudo que tinha apostado no jogo, incluindo a lua crescente, seu colar e brincos. Quando Parvati exigiu que Shiva desse a ela tudo que tinha apostado, ocorreu uma briga entre os dois, para a agonia de seus serventes. Parvati arrancou a cobra de Shiva, a lua crescente e até sua túnica amarrada no quadril. Os espectadores ficaram envergonhados e Shiva, com raiva, abriu seu terceiro olho. Depois desse incidente, os dois se separaram. Shiva retirou-se para a selva e Parvati para seus aposentos. Mas ela ficou atormentada com essa separação e ouvindo os conselhos de suas damas de companhia foi atrás de Shiva. Ela se transformou em uma shabari, uma mulher tribal, e aproximou-se de Shiva, que estava em meditação profunda. Shiva sentou-se atraído pela shabari e quando ele percebeu que não era ninguém mais que Parvati ele percebeu também seu erro e uniu-se a ela para a alegria dos dois.


Em outra ocasião, Parvati sente-se ofendida quando Shiva chama-a pelo apelido Kali (“neguinha”), o que Parvati toma como uma crítica a sua aparência. Ela decide livrar-se de sua compleição negra e assim o faz entregando-se às austeridades. Assumindo uma compleição dourada, ela torna-se então conhecida pelo nome Gauri (a brilhante ou a dourada). Em algumas versões do mito, sua compleição negra descartada se torna uma deusa guerreira que empreende fietos heróicos ou combate os demônios.


A presença de um alter-ego ou lado violento e escuro de Parvati é sugerida em vários mitos nos quais os demônios ameaçam o cosmos e Parvati é chamada para auxiliar os deuses derrotando o demônio em questão. Normalmente, quando Parvati fica nervosa com a perspectiva de guerra, de sua fúria nasce uma deusa violenta e continua a lutar no lugar de Parvati. Essa deidade com sede de sangue é geralmente identificada como Kali. Na maioria das circunstâncias, no entanto, os mitos enfatizam o lado mais suave de Parvati. A imagem de Parvati no campo de batalha é tão deslocada que outra deusa deve ser convocada para incorporar sua fúria e dissociar essa fúria de Parvati.


O tema principal do ciclo de mitos de Parvati é claro. A associação entre Parvati e Shiva representa a tensão contínua no Hinduísmo entre o ideal ascético e o ideal familiar. Parvati, na maioria das vezes, representa o ideal familiar. Sua missão é atrair Shiva para o mundo do casamento, sexo, e crianças, tentá-lo para fora do asceticismo, yoga, e outras preocupações sobrenaturais. Nesse papel Parvati é quem sustenta a ordem do dharma, quem aumenta a vida no mundo, quem representa a beleza e a atração da vida munda, sexual, quem estima a casa e a sociedade ao invés da floresta, as montanhas ou da vida ascética. Parvati civiliza Shiva com sua presença; na verdade, ela o domestica.


Na mitologia Hindu, uma das principais funções de Shiva é a destruição do cosmos. De fato, Shiva possui um aspecto selvagem, imprevisível, destrutivo. Como o grande dançarino cósmico, ele periodicamente faz a tandava, uma dança especialmente violenta. Segurando um machado de batalha quebrado, ele dança tão selvagemente que o cosmos é destruído completamente. Os rodopios de seus braços e sua cabeleira esvoaçante batem nos corpos celestiais, tirando-os de cursos ou destruindo-os completamente. As montanhas tremem e os oceanos levantam à medida que o mundo é destruído por sua dança violenta. Parvati, em contraste, é retratada como a construtora paciente, a que segue Shiva por toda parte, tentando amenizar os efeitos violentos de seu marido. Ela é uma grande força de preservação e reconstrução no mundo e como tal compensa a violência de Shiva.


Quando Shiva dança violentamente a tandava, Parvati acalma-o com olhares amáveis, ou complementa sua violência com um passo lento e criativo que ela mesma criou.


O objetivo de Parvati em seu relacionamento com Shiva não é nada menos que a domesticação do deus ascético e solitário cujo comportamento beira a loucura. Shiva é indiferente à propriedade social, não se importa com crianças, diz que a mulher é um obstáculo à vida espiritual, e é desdenhoso dos enfeites da vida familiar. Parvati tenta envolve-lo na vida mundana familiar argumentando que ele deve seguir as convenções se a ama e a quer. Ela o persuade, por exemplo, a casar-se com ela de acordo com os devidos rituais, a seguir os costumes, ao invés de simplesmente fugir com ela. Ela, no entanto, não é bem-sucedida em mudar seus adornos e hábitos ascéticos. Ela freqüentemente reclama de sua nudez e acha seus ornamentos horríveis. Geralmente instigada por sua mãe, Parvati reclama que ela não possui uma casa adequada para morar. Shiva, como bem se sabe, não tem uma casa, mas prefere viver em cavernas, em montanhas, ou em florestas ou vagar pelo mundo como um pedinte sem-teto.


Muitos mitos retratam as respostas de Shiva aos pedidos de Parvati por uma casa. Quando ela reclama que a chuva chega em breve e que não há casa para protege-la, Shiva simplesmente a leva para o pico mais alto das montanhas, acima das nuvens, onde não chove. Além disso, ele diz que sua “casa” é o universo e argumenta que um asceta entende que o mundo todo é sua moradia. Esses argumentos filosóficos nunca satisfazem Parvati, mas ela nunca consegue convencê-lo.


Shiva é um deus de excessos, tanto ascético como sexual, e Parvati assume o papel de modificadora. Como uma representante do ideal familiar, ela representa o ideal do sexo controlado, ou seja, sexo casado, que é o oposto do asceticismo e erotismo.


O tema do conflito, tensão ou oposição entre o jeito do asceta e o jeito da dona do lar na mitologia de Shiva e Parvati rendem-se a uma visão de reconciliação, interdependência, e harmonia simbólica em diversas imagens que combinam as duas deidades. Três temas são centrais na mitologia, iconografia e filosofia de Parvati:
- O tema de Shiva-Shakti
- A imagen de Shiva como Ardhanareshwara (o Senhor que é metade mulher)
- A imagem de linga e yoni


Shiva Shakti
A idéia de que os grandes deuses masculinos possuem um poder inerente através do qual podem empreender atividade criadora é corrente no pensamento filosófico Hindu. Quando esse poder, ou Shakti, é personificado, é sempre na forma de uma deusa. Parvati, naturalmente, assume a identidade da Shakti de Shiva. Ela é a força fundamental e que impele a criação. Nesse papel ativo-criativo ela é identificada com prakriti (natureza), enquanto Shiva é identificado com purusha (espírito puro). Como prakriti, Parvati representa a tendência inerente da natureza de expressar-se em formas concretas e seres individuais. Nessa tarefa, no entanto, Parvati deve ser posta em ação pelo próprio Shiva. Ela não é vista como antagônica a ele. Seu papel como sua Shakti é sempre interpretado como positivo. Através de Parvati, Shiva (o Absoluto) é capaz de expressar-se na criação. Sem ela ele permaneceria inerte, indiferente, inativo. Somente associado a ela que Shiva pode perceber ou manifestar seu potencial. Parvati como Shakti não apenas complemente Shiva, ela o completa.


Uma variedade de imagens e metáforas são usadas para expressar essa harmoniosa interdependência. Shiva é o princípio masculino da criação, Parvati o princípio feminino; Shiva é o céu, Parvati a terra; Shiva é o oceano, Parvati a praia; Shiva é o sol, Parvati sua luz; Parvati é todos os gostos e cheiros, Shiva o apreciador de todos os gostos e cheiros; Parvati é a corporificação de todas as almas individuais, Shiva é a própria alma; Parvati assume qualquer forma que é possível ser pensada, Shiva pensa em todas as possíveis formas; Shiva é o dia, Parvati a noite; Parvati é a criação, Shiva o criador; Parvati é o discurso, Shiva o significado; e assim por diante. Os dois são, na verdade, um – aspectos diferentes da realidade final – e como tal são complementares e não antagônicos.


Ardhanareshwara
O significado da forma Ardhanareshwara de Shiva é parecido. A imagem mostra uma figura metade homem metade mulher. O lado direito é Shiva e está adornado com seus ornamentos; o lado esquerdo é Parvati e adornado com os ornamentos dela.


No Shiva-Purana o deus Brahma é incapaz de continuar sua tarefa com a criação porque as criaturas que ele produziu não se multiplicam. Ele então pede para que Shiva o ajude. Shiva aparece na sua forma Ardhanareshwara. Essa forma hermafrodita se separa em Shiva e Parvati, e Parvati, a pedido de Brahma, permeia a criação com sua natureza feminina, que acorda o aspecto masculino da criação para a atividade fértil.


Sem essa metade feminina, ou natureza feminina, a divindade Shiva é incompleta e incapaz de continuar a criação. Além da idéia Shiva-Shakti, a imagem andrógina de Shiva e Parvati enfatiza que as duas deidades são necessárias uma à outra, e somente em união podem se completar. Nessa forma, a divindade transcende a particularidade sexual. Deus é tanto masculino quanto feminino, tanto pai quanto mãe, tanto reservado quanto ativo, tanto temível quanto gentil, tanto destrutivo quanto construtivo, e assim por diante.


Linga e Yoni

A imagem do linda na yoni, que é a forma mais comum da deidade nos templos de Shiva, também ensina a lição que a tensão entre Shiva e Parvati é revolvida na interdependência. Parvati como uma entidade sexual tem êxito em moderar o excessivo alheamento de Shiva do mundo e também seu excessivo vigor sexual. Na forma da yoni, Parvati preenche e completa as tendências criativas de Shiva. Assim como a grande yoni que acumula uma imensa potência sexual, ele e simbolizado pelo linga. A grande potência é criativamente liberada no contato sexual com Parvati. A imagem do linga na yoni simboliza a liberação criativa no ato erótico final de poder armazenado através do asceticismo. O ato erótico é então aumentado, fica mais potente, fecundo, e criativo, por causa do poder que Shiva guarda do asceticismo.


Apesar de a maioria das artes darem a Parvati uma aura religiosa, incluindo uma certa verdade poética, existe também uma expressão dos amores românticos e maternais de Parvati. Possuindo uma graça rítmica e refinada sobre eles, essas representações possuem um certo charme terreno e espontaneidade. Nessa forma, Parvati não é apenas mais amável e acessível, mas também pertence ao santuário ou às paredes da casa. Elas não são apenas ícones ou poesia visual, mas seres míticos reduzidos para a realidade diária. Essa Parvati “real” é aquela com quem um homem comum pode se relacionar, adorar e celebrar, de sua maneira pessoal.
http://aguapotavel.blogspot.com/s

sábado, 22 de outubro de 2011

KALI A FORÇA FEMININA




A Índia sempre me fascinou e acredito que também fascina muita gente. A diversidade e riqueza cultural que lá existe são tamanhas e seus deuses são impressionantes. Nesse artigo resolvi falar de Kali, uma das faces da grande mãe que muitas vezes é mal-interpretada. Espero que gostem!


Nós sabemos que desde a pré-história a deusa mãe é adorada como fonte de vida e fertilidade. Mas na Índia, ela só passou a ser a Grande Deusa, cheia de poderes cósmicos, a partir do século V ou VI, com a composição do Devi Mahatmya (Glória da Deusa), o que fez com que a adoração do princípio feminino adquirisse novas dimensões. Nesse texto, a deusa deixa de ser apenas a fonte misteriosa da vida e passa a ser a própria terra, que tudo cria e consome.


Durante uma batalha entre as forças divinas e anti-divinas, Kali aparece pela primeira vez no Devi Mahatmya, quando emana da testa da Deusa Durga, que é a caçadora de demônios. O nome Durga significa "Além do Alcance" e ela representa a autonomia virginal e cruel da mulher guerreira.


Kali é representada como uma mulher preta com quatro braços; em uma mão ela tem uma espada, em outra a cabeça do demônio que ela caçou, com as outras duas ela encoraja seus adoradores. Seus brincos são dois cadáveres e ela veste um colar de crânios; ela veste apenas um cinto feito de mãos de homens mortos, e sua língua fica pra fora da boca. Seus olhos são vermelhos, e seu rosto e seios estão lambuzados de sangue. Ela fica em pé, com um pé apoiado na coxa e outro no peito de seu marido.


Todo mundo fala da crueldade da aparência de Kali. Mas, apesar de sua forma cruel ser cheia de símbolos assustadores, as pessoas acabam por interpreta-los de maneira errada: o fato de Kali ser negra, por exemplo, simboliza sua natureza compreensiva e abrangente, já que preto é a cor na qual todas as outras cores se fundem; o preto as absorve e dissolve. 'Assim como todas as cores desaparecem no preto, também todos os nomes e formas desaparecem em Kali' (Mahanirvana Tantra). O preto também é a completa ausência de cor, significando também a natureza de Kali como a realidade última. No sânscrito isso é chamado de nirguna (além da qualidade e forma). De qualquer maneira, a cor preta de Kali simboliza sua transcendência de todas as formas.


Um poeta devoto diz:


"É Kali, minha Divina Mãe, de compleição negra?".
Ela parece ser negra porque é vista à distância;
mas quando finalmente conhecida Ela não mais o é.
O céu parece ser azul à distância, mas olhe de perto
e descobrirás que não tem cor alguma.
A água do oceano parece azul à distância,
mas quando chegas perto e a coloca em suas mãos,
descobrirás que é incolor."
... Ramakrishna Paramhansa (1836-86)


A nudez de Kali tem um significado parecido. Muitas vezes ela é descrita como vestida de espaço ou de céu. Em sua nudez absoluta e primordial ela é livre de qualquer cobertura de ilusão. Ela é Natureza (Prakriti em sânscrito), despida de roupas. Isso simboliza que ela é completamente além do nome e da forma, completamente além dos efeitos ilusórios de maya (falsa consciência). Sua nudez representa a consciência totalmente iluminada, não atingida por maya. Kali é o fogo brilhante da verdade, que não pode ser escondido pelas roupas da ignorância. A verdade simplesmente incendeia qualquer roupa que tenta cobri-la..


Ela possui os seios cheios; sua maternidade é uma criação sem fim. Seu cabelo desalinhado forma uma cortina de ilusão, o tecido do espaço-tempo que organiza a matéria do mar caótico de espuma quântica. Sua colar de cinqüenta cabeças humanas, cada uma representando uma das cinqüenta letras do alfabeto sânscrito, simboliza o depósito de conhecimento e sabedoria. Ela veste um cinto de mãos humanas cortadas - mãos que são os principais instrumentos de trabalho e por isso significam a ação do karma. Por isso os efeitos obrigatórios desse karma terem sido superados, cortados, como o foram, por devoção a Kali. Ela abençoou o devoto libertando-o do ciclo do karma. Seus dentes brancos são um símbolo de pureza (do sânscrito Sattva), e sua longa língua, que é vermelha, representa o fato que ela consome todas as coisas e denota o ato de provar ou apreciar o que a sociedade afirma ser proibido, ela aprecia todos os sabores do mundo.


Kali contém o ciclo completo de criação e destruição, e isso é representado por seus quatro braços. Ela representa os ritmos criativos e destrutivos inerentes ao cosmos. Suas mãos direitas, fazendo os mudras de "não temas" e concedendo dádivas, representam o aspecto criativo de Kali, enquanto as mãos esquerdas, segurando uma espada ensangüentada e uma cabeça cortada, representam seu aspecto destrutivo. A espada ensangüentada e a cabeça cortada são a destruição da ignorância e o amanhecer do conhecimento. A espada é a espada do conhecimento, que corta os nós da ignorância e destrói a falsa consciência (a cabeça cortada). Kali abre os portões da liberdade com essa espada, tendo cortado os oito elos que prendem os seres humanos. Finalmente seus três olhos representam o sol, a lua, e o fogo, com os quais ela consegue observar os três modos do tempo: passado, presente e futuro. É daí que vem a origem do nome de Kali, que é a forma feminina de 'Kala', o termo sânscrito para Tempo.


Um outro aspecto simbólico, mas que dá muito o que falar, de Kali é sua proximidade com o solo de cremação:


Ó Kali, Tu és afeiçoada aos solos crematórios;
então eu transformei meu coração em um
para que tu, uma residente de solos crematórios,
possas dançar lá sem cessar.
Ó Mãe! Não possuo outro vão desejo em meu coração;
o fogo da pira funerária está queimando lá;
Ó Mãe! Preservei as cinzas dos cadáveres ao redor
para que Tu possas vir.
Ó Mãe! Mantendo Shiva, o conquistador da Morte, sob Teus pés,
Venhas, dançando ao som da música;
Prasada aguarda com seus olhos fechados
... Ramprasad (1718-75)


A moradia de Kali, o solo crematório, é um lugar onde os cinco elementos (Sânscrito: pancha mahabhuta) estão dissolvidos. Kali mora onde a dissolução acontece. Em termos de devoção e adoração, isso mostra a dissolução de acessórios, raiva, desejo, e outras emoções, sentimentos e idéias que nos mantêm prisioneiros. O coração do devoto é onde tudo queima, e é nesse coração que Kali reside. O devoto faz sua imagem em seu coração e sob suas influências queima todas limitações e ignorância nos fogos crematórios. Esse fogo que queima dentro do coração é o fogo do conhecimento, (Sânscrito: gyanagni), presente de Kali.


A imagem de Shiva deitado sob os pés de Kali representa-o como o potencial passivo da criação e Kali como sua Shakti. Shakti é o princípio criativo feminino Universal e a força energizante atrás de todas as divindades masculinas incluindo Shiva. Shakti é conhecida pelo nome de Devi, da raiz 'div', que significa brilhar. Ela é a Brilhante, que possui nomes diferentes em lugares diferentes e com diferentes aparências, como o símbolo dos poderes doadores-de-vida do Universo. Sem o i, Shiva é Shva, o que em sânscrito significa cadáver. Isso sugere que sem sua Shakti, Shiva é impotente ou inerte.


Kali nos mostra como o mundo é apenas um jogo dos deuses. Ela traz em sua aparência selvagem a criatividade espontânea do reflexo divino. À medida que Kali é identificada com o mundo dos fenômenos, ela apresenta a corporificação do mundo que forma a base de sua natureza efêmera e imprevisível. Em sua dança louca, cabelo desgrenhado, e berro sinistro faz-se a alusão de um mundo vacilante, fora de controle. O mundo é criado e destruído na dança selvagem de Kali, e a verdade da redenção está na nossa percepção de que também somos convidados a fazer parte dessa dança, para permitir a batida frenética da dança de vida e morte da Mãe.


Ó Kali, minha Mãe cheia de Êxtase! Sedutora do
onipotente Shiva
Em Tua alegria delirante Tu danças, batendo
Tuas mãos juntas!
Tua és o Motor de tudo o que se move, e nós
somos nada senão Teus brinquedos
...Ramakrishna Paramhans


Kali e seu cortejo dançam aos ritmos ditados por Shiva (Senhor da destruição) e seus seguidores zoocéfalos que vivem no Himalaia. Associados com o caos e destruição incontrolável, os seguidores de Kali exibem espadas e carregam acima de suas cabeças cálices de caveiras de onde bebem o sangue que os intoxica. Kali, como Shiva, possui um terceiro olho, mas em todos os outros aspectos os dois são diferentes. Os membros negros e definhados de Kali, seus movimentos angulares e caretas cruéis carregam uma intensidade selvagem. Seu cabelo solto, colar de crânios e capa de tigre chicoteiam em torno de seu corpo à medida que ela bate os pés e as palmas ao ritmo da dança.


Muitas histórias descrevem a dança de Kali e Shiva como a que "ameaça destruir o mundo" por causa de seu poder feroz. A imagem de Kali dançando com Shiva segue o mito do demônio Daruka. Quando Shiva pede que sua mulher Parvati destrua esse demônio, ela entra no corpo de Shiva e se transforma com o veneno que é armazenado em sua garganta. Ela emerge de Shiva como Kali, de aparência feroz, e com a ajuda de seu cortejo bebedor de sangue ataca e derrota o inimigo. Kali, no entanto, ficou tão intoxicada com o entusiasmo pelo sangue da batalha que sua fúria e apetite selvagem ameaçaram destruir o mundo todo. Ela continuou sua violência até Shiva manifestar-se como uma criança e cair chorando no meio do campo de cadáveres. Kali, enganada pelo poder de ilusão de Shiva, tornou-se calma à medida que amamentava o bebê. Quando a noite chegou, Shiva fez a dança da criação (tandava) para agradar a deusa. Deliciada com a dança, Kali e seu cortejo juntaram-se a ela.


Essa imagem impressionante e intensa revela perfeitamente a natureza de Kali como a Divina Mãe. Ramaprasad expressa esse sentimento da seguinte forma:


Veja minha Mãe brincando com Shiva,
perdida num êxtase de prazer!
Bêbada com um gole do vinho celestial,
Ela oscila, e mesmo assim não cai.
Ereta Ela permanece no peito de Shiva,
e a terra Treme sob Seu passo;
Ela e Seu Amo estão loucos em frenesi.
Afastando todo medo e vergonha.
... Ramaprasad (1718-75)


Até hoje os devotos de Kali são atraídos para ela por causa de suas qualidades humanas e maternais. Nas relações humanas, o amor entre mãe e filho é geralmente considerado o mais puro e mais forte. Da mesma maneira, o amor entre a Deusa Mãe e sua criança humana é considerado a relação mais próxima e carinhosa com a divindade. Conseqüentemente, os devotos de Kali formam com ela um laço de intimidade e amor. Mas o devoto nunca esquece os aspectos demoníacos e assustadores de Kali. Ele não distorce a natureza de Kali e a verdade que ela revela; ele não se recusa a meditar em seus traços apavorantes. Ele os cita repetidamente em suas canções mas nunca é repelido por eles. Kali pode ser assustadora, louca, a mestra descuidada de um mundo fora de controle, mas ela é, apesar de tudo, a Mãe de tudo. Como tal, ela deve ser aceita por suas crianças - aceita com admiração e pavor, mas mesmo assim aceita. O poeta, num tom íntimo e iluminado, trata a Mãe da seguinte forma:


Ó Kali! Por que Tu perambulas nua?
Tu não tens vergonha, Mãe!
Vestes e ornamentos Tu não tens nenhum;
no entanto Tu te gabas em ser a filha do Rei.
Ó Mãe! É um mérito de Tua família que Tu
Coloques teus pés em Teu marido?
Tu estás nua; Teu marido está nu; ambos vagam pelos solos de cremação.
Ó Mãe! Estamos todos com vergonha de você; coloque tua veste.
Tu jogaste fora Teu colar de jóias, Mãe,
E vestes um colar de cabeças humanas.
Prasada diz: "Mãe! Tua beleza cruel assustou
Teu consorte nu.
... Ramaprasad


A alma que venera sempre se torna uma criança: a alma que se torna uma criança encontra Deus mais freqüentemente como mãe. Numa meditação antes do Sagrado Sacramento, alguma caneta escreveu essa excelente declaração: "Minha criança, você não precisa saber muito para agradar-Me. Apenas Me ame querido. Fale comigo, como você falaria com sua mãe, se ela o tivesse em seus braços."


Nos só ganhamos a dádiva de Kali quando aceitamos ou confrontamos as realidades que ela envia pra nós. Kali, de diversas formas, ensina-nos que dor, mágoa, decadência, morte e destruição não devem ser superadas ou conquistadas com a negação ou tentando explica-las. Dor e mágoa são tecidos na textura da vida humana tão intrinsicamente que nega-los é extremamente vão. Para que nós consigamos realizar a completude de seu ser, para que exploremos nosso potencial como seres humanos, devemos finalmente aceitar essa dimensão da existência. A dádiva de Kali é a liberdade, a liberdade da criança de aproveitar o momento, e só é conquistada após o confronto ou aceitação da morte. Se ignoramos a morte, fingimos que somos fisicamente imortais, fingimos que o ego é o centro das coisas, provocamos em Kali uma risada de deboche. Se confrontamos ou aceitamos a morte, ao contrário, compreendemos um modo de vida que pode encantar-nos e divertiremo-nos com o jogo dos deuses. Aceitando a mortalidade estaremos prontos para ir, cantar, dançar e gritar. Kali é a mãe de seus devotos não porque os protege da maneira que as coisas realmente são, mas porque ela revela a eles sua mortalidade e com isso liberta-os para agir com plenitude e livres, liberta-os da inacreditável teia de ligação que são a pretensão, praticidade e racionalidade adulta.

http://aguapotavel.blogspot.com/

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