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terça-feira, 25 de outubro de 2011

A LENDA DE KAMAKHYA



Kamakhya é um complexo de dez templos que representam outras tantas formas da deusa Parvati, companheira de Xiva e situa-se em Nilachal, a montanha azul, perto de Guwahati a capital do Assam. Eis a lenda:
A consorte de Xiva, Parvati, travou uma discussão conjugal
a propósito da festa que seu pai ia dar nos próximos dias
e para a qual Xiva não tinha sido convidado.
Dizia Parvati que não precisava de convite para assistir
a um sacrifício a efectuar na casa de seu pai
e que Xiva, sendo seu marido, devia acompanhá-la.
Orgulhoso, Xiva insistia que sem convite nada feito
e que proibia a sua mulher de ir e que aquilo era uma afronta
do sogro e que era assunto encerrado.
Parvati repetia que com ou sem autorização do marido iria
à festa de qualquer maneira ... e que não que não vais ... e que sim que vou, tu não sabes do que eu sou capaz e a discussão subindo de tom e as posições extremando-se e Parvati, como derradeiro argumento, numa dança diabólica em torno de Xiva
assume sucessivamente dez formas terríficas de outras tantas deusas.
O Ser Supremo espantado e confuso com o imenso poder da sua esposa, acedeu em deixá-la ir sozinha à festa de seu pai.
A festa decorreu animada mas muita gente presente criticou
violentamente Xiva pela sua atitude de distância e soberba
em relação aos outros deuses assim como a sua mania
da superioridade. Isto perturbou mortalmente Parvati
que não admitindo tão violentas críticas ao seu marido
na ausência deste, lançou-se na fogueira do sacrifício,
imolando-se pelo fogo. A versão tântrica da história conta que ela
se auto-aniquilou pelo poder do yoga.
Xiva, que estava em meditação profunda,
como era aliás seu costume, sentiu uma enorme perturbação e,
Omnisciente, percebeu de imediato o que se tinha passado.
Louco de raiva e de dor, transportou o cadáver
da sua amada pelo mundo fora destruindo tudo à sua passagem.
Os deuses temeram pelo fim do Universo e,
reunindo um conselho, nomearam Vixnu para pôr cobro
a tão desvairada destruição. Vixnu perseguiu Xiva e,
quando o encontrou, usou o seu terrível disco
para despedaçar o corpo de Parvati em 51 pedaços
que se espalharam pela terra da Índia.
Desde então, esses 51 lugares são outros tantos xakti pithas,
locais de culto da deusa.
No Assam, em Kamakhya nas montanhas azuis,
caiu o yoni (vagina) a parte mais sagrada da deusa da procriação,
a fonte da vida. Esta é a lenda de Kamakhya, aquela cujo nome é desejo, ou Kamarupa, a que tem a forma do amor. 

http://ayapaexpress.blogspot.com

A DEUSA DO AMOR E DA BELEZA



A tradição indiana é extremamente rica em relação a deusas. Seus nomes e manifestações são tão variados que qualquer vila ou escritura, qualquer arte e artista criam suas próprias imagens dela. Algumas vezes ela é a consorte, outras uma deusa da fertilidade; às vezes ela é benevolente mas ela também pode ser horrível e má. A tradição é cheia principalmente de deusas associadas a Shiva. Mas a mais amada e celebrada artisticamente é Parvati. Ao contrário de Durga e Kali, que assumiram seus status religiosos independentes no panteão Hindu e são adoradas e veneradas ritualmente, Parvati tem atenção maior de poetas e pintores, músicos e dançarinos.


Seus aspectos são variados, seus atributos são múltiplos e muitos são seus nomes. De todos os seres míticos no panteão Hindu ela é talvez a mais amada e sem dúvida a que mais doa seu amor. Nela temos a verdadeira celebração da feminilidade Hindu. Com uma beleza sensual incomparável, seu dom não é somente físico mas espiritual, não narcisístico mas sim um oferecimento. Nela pode-se dizer que reside a grande personificação da expressão Hindu, assim como o conceito de beleza.


Na mitologia clássica, a razão de ser do nascimento de Parvati é atrair Shiva para o casamento e por conseqüência ao ciclo maior da vida casada da qual ele está afastado como um asceta solitário, vivendo nos ermos das montanhas. A deusa representa o pólo complementar ao asceta. Em seu papel de donzela, esposa, e depois como mãe, ela amplia o círculo de atividade de Shiva ao reino do lar, onde sua energia armazenada é liberada de maneiras positivas.


O nome de Parvati, que significa “ela que reside nas montanhas” ou “ela que é da montanha”, identifica-a com regiões montanhosas. Ela era a filha de Himavat (Senhor das montanhas) e sua rainha Mena. Ela é geralmente descrita como sendo muito bonita. Mostrou um interesse forte por Shiva desde o começo, repetindo seu nome para si mesma e aprazendo-se ao ouvir sobre suas aparições e proezas. Enquanto ela é ainda uma criança, um sábio vai a sua casa e após examinar as marcas em seu corpo prediz que ela se casará com um yogi nu. Quando fica claro que ela está destinada a se casar com Shiva, seus pais sentem-se extremamente honrados. Parvati, é claro, também fica radiante.


Em uma ocasião, enquanto Parvati está tentando chamar a atenção de Shiva para o casamento, Kama é enviado pelos deuses para despertar em Shiva o desejo. Quando ele atrai a atenção de Shiva com sons e cheiros de primavera, e tenta perturbar Shiva com suas armas intoxicantes, Shiva queima-o a cinzas com seu terceiro olho. Mas imperturbável em sua devoção, Parvati persiste em sua busca para ganhar Shiva como seu marido fazendo austeridades.


Uma das maneiras mais eficientes de conseguir o que se quer no hinduísmo tradicional é fazer tapas, “austeridades ascéticas”. Se você for persistente e heróico o suficiente, você irá gerar tanto calor que os deuses serão forçados a garantir-lhe qualquer desejo para salvar a si e o mundo de serem queimados. O método de Parvati para ganhar Shiva é portanto, uma estratégia comum para realizar seus desejos. É também apropriado para demonstrar a Shiva que ela pode competir com ele em seu próprio reino, que ela possui os recursos interiores, controle e coragem para se isolar do mundo e dominar completamente suas necessidade físicas. Fazendo tapas, Parvati abandona o mundo do lar e adentra o reino do mundo renunciante, chamado de mundo de Shiva. A maioria das versões do mito descreve-a superando todos os grandes sábios em suas austeridades. Ela faz todas as mortificações tradicionais, como sentar-se no meio de quatro fogueiras no meio do verão, expor-se aos elementos durante a estação das chuvas e durante o inverno, viver apenas de folhas ou ar, permanecer apoiada em uma perna por anos, etc. Até que ela acumulou tanto calor que os deuses ficaram incomodados e persuadiram Shiva a ceder ao pedido de Parvati, para que ela parasse seus esforços.


O casamento é devidamente arranjado e elaboradamente empreendido. A procissão do casamento de Shiva, que inclui a maioria do panteão Hindu, é descrita em detalhes. Um tema freqüente durante as preparações do casamento é a indignação de Mena quando ela finalmente vê Shiva pela primeira vez. Ela não pode acreditar que sua linda filha vai se casar com um indivíduo tão ultrajante; em algumas versões, Mena ameaça suicídio e desmaia quando dizem para ela que aquele ser esquisito na procissão de casamento é, na verdade, seu futuro genro.
Depois que os dois estão casados eles partem para o Monte Kailasha, a moradia favorita de Shiva, e mergulham completamente em flerte sexual, que continua ininterruptamente por um longo tempo. O deus do amor, Kama, é ressuscitado quando Shiva abraça Parvati e o suor do corpo dela mistura-se com as cinzas do deus queimado.


O amor dos dois é tão intenso que chacoalha o cosmos, e os deuses ficam assustados. Eles se aterrorizam com a idéia da criança que surgirá com a união de duas deidades tão poderosas. Eles temem os poderes extraordinários da criança. Então eles planejam interromper o ato de amor de Shiva e Parvati. Vishnu vai com seu séqüito de deuses a Kailasha e espera pacientemente do lado de fora dos aposentos de Shiva. Muitos anos se passaram e Shiva continuava trancado no quarto com Parvati. Vishnu falou com uma voz aguda e lamentosa e convenceu Shiva a sair e ouvir seu problema. Quando Shiva descuidou-se, Agni (Fogo) disfarçou-se de pombo e entrou no quarto de Shiva. Parvati percebeu imediatamente que sua privacidade havia sido violada. Shiva recolheu-se e uma gota de seu sêmen caiu no chão. Agni, na forma de pombo, comeu a gota de sêmen. Parvati no entanto ficou perturbada e com raiva pelos deuses terem se juntado e interrompido seus prazeres eróticos, e amaldiçoou-os dizendo que todas suas esposas ficariam estéreis. Ela estava irritada principalmente com Agni, por ter comido a semente de Shiva.


Quando Agni ficou impossibilitado de carregar a semente de fogo, ele foi para as margens do Ganga. Nesse momento, as esposas de sete sábios tinham decido para se banhar. Seis delas sentiram frio e foram na direção de Agni. Agni derrubou a semente e a semente entrou nas esposas e elas ficaram grávidas. Quando os sábios ficaram sabendo disso, eles advertiram suas esposas, que colocaram o embrião em um dos picos do Himalaia. Assim nasceu Kartikeya, uma criança resplandecente com seis cabeças. Shiva e Parvati ficaram deliciados com o nascimento de seu filho e isso somou muita alegria a Parvati, que havia desejado uma criança. Diz-se que, por afeição, de seus seios escorreu leite quando ela viu a criança pela primeira vez.


Os instintos maternais de Parvati foram, na verdade, as emoções mais poderosas na vida dela. Enquanto Shiva entusiasmava-se com seu gracejo romântico, a verdadeira mãe nela pedia por uma criança. Ela implorou a Shiva para gerar nela um filho e torna-la mãe mas o Shiva ascético não ouviu nada disso. Ela lembrou-o de que nenhum rito ancestral é feito para um homem que não tem descendentes. Shiva declarou que ele não tinha nenhuma vontade de ser um grahastha, chefe de família, pois isso traz restrições. Parvati ficou desolada e ao vê-la nesse estado Shiva puxou um fio de seu vestido vermelho, fez um filho e deu para ela. Parvati segurou-o junto ao seio e ele viveu. Ele sorria enquanto ele chupava seu leite e Parvati, agradecida, deu o filho a Shiva. Shiva ficou surpreso por Parvati ter soprado vida em uma criança feita de tecido mas avisou que o planeta Saturno não era auspicioso para essa criança e, enquanto pronunciava essas palavras, a cabeça da criança caiu no chão. Parvati ficou dominada pela tristeza. Shiva tentou, sem sucesso, colocar a cabeça de volta. Uma voz vinda do céu disse que somente a cabeça de alguém de frente para o norte grudaria na criança. Shiva mandou Nandi achar tal pessoa. Nandi logo achou o elefante de Indra, Airavat, deitado com sua cabeça de para o norte e começou a cortá-la. Indra interviu, mas Nandi foi bem sucedido, apesar de que na luta uma das presas do elefante tenha quebrado. Nandi levou a cabeça a Shiva e assim nasceu Ganesha. Os deuses celebraram o nascimento e Parvati ficou satisfeita.


Em um outro mito, Parvati tem uma tercira criança, Andhaka, e seu nascimento é narrado em uma lenda interessante. Brincando, Parvati fecha os olhos de Shiva com suas delicadas mãos e de repente a escuridão inundou o muno. As mãos da deusa foram embebidas no fluido de Shiva nascido da paixão, e quando aquecidas pelo calor do terceiro olho de Shiva, uma criança horrível cresceu, cega e repulsiva. Mas Parvati, leal a sua natureza, cuidou dessa criança com amor como cuidaria de qualquer outra. Mas, à medida que Andhaka cresceu, ele se tornou um demônio desejando ardentemente sua própria mãe, e foi morto por Shiva.


Na maioria do tempo, o casamento e a vida familiar de Shiva e Parvati é harmonioso, feliz e calmo. Os dois são geralmente retratados sentado em um abraço íntimo. Houve também diversos momentos de discussão filosófica entre os dois. Enquanto Shiva ensinava a parvati a doutrina do Vedanta, Parvati correspondia ensinando-o as doutrinas do Shankhya, porque se Shiva era o professor perfeito, Parvati, como yogini, não deixava por menos. Parvati estava constantemente ao lado de Shiva, encorajando, assistindo e participando de todas as suas atividades.


Uma parte importante da rotina diária de Shiva era a preparação de bhang, sua droga favorita. Parvati colhia as melhores folhas de bhang, amassava-as e filtrava a decocção em uma musselina bem limpa. Às vezes Parvati ajudava Shiva a fazer uma colcha que os manteria aquecidos nas noites frias do Kailasha. Outras vezes ela sentava-se e massageava os pés de seu amado enquanto Shiva reclinava-se embaixo de uma árvore. O maior prazer de Parvati era servir Shiva e fornecer tudo o que ele precisasse. Nada era mais importante para ela do que ser útil a seu amo, visando seu conforto e assegurando-se que ele não voltasse ao seu modo ascético solitário de auto-renúncia. Nessas atividades ela combinava os papéis de esposa cuidadosa e mãe afetuosa.


Mas Shiva e Parvati também brigam e discutem de vez em quando. Relatos bengalis de Shiva e Parvati geralmente descrevem Shiva como um marido irresponsável, maconheiro, que não pode cuidar de si mesmo. Parvati é retratada como a esposa sofredora, que freqüentemente reclama para sua mãe mas que sempre permanece imperturbável para seu marido.


Shiva também era passional em seu amor por Parvati. Entre os vários jogos que eles jogavam, o mais significante era o jogo de dados. Uma vez aconteceu que Parvati estava inicialmente perdendo para Shiva, mas então gradualmente a mesa virou e Shiva perdeu tudo que tinha apostado no jogo, incluindo a lua crescente, seu colar e brincos. Quando Parvati exigiu que Shiva desse a ela tudo que tinha apostado, ocorreu uma briga entre os dois, para a agonia de seus serventes. Parvati arrancou a cobra de Shiva, a lua crescente e até sua túnica amarrada no quadril. Os espectadores ficaram envergonhados e Shiva, com raiva, abriu seu terceiro olho. Depois desse incidente, os dois se separaram. Shiva retirou-se para a selva e Parvati para seus aposentos. Mas ela ficou atormentada com essa separação e ouvindo os conselhos de suas damas de companhia foi atrás de Shiva. Ela se transformou em uma shabari, uma mulher tribal, e aproximou-se de Shiva, que estava em meditação profunda. Shiva sentou-se atraído pela shabari e quando ele percebeu que não era ninguém mais que Parvati ele percebeu também seu erro e uniu-se a ela para a alegria dos dois.


Em outra ocasião, Parvati sente-se ofendida quando Shiva chama-a pelo apelido Kali (“neguinha”), o que Parvati toma como uma crítica a sua aparência. Ela decide livrar-se de sua compleição negra e assim o faz entregando-se às austeridades. Assumindo uma compleição dourada, ela torna-se então conhecida pelo nome Gauri (a brilhante ou a dourada). Em algumas versões do mito, sua compleição negra descartada se torna uma deusa guerreira que empreende fietos heróicos ou combate os demônios.


A presença de um alter-ego ou lado violento e escuro de Parvati é sugerida em vários mitos nos quais os demônios ameaçam o cosmos e Parvati é chamada para auxiliar os deuses derrotando o demônio em questão. Normalmente, quando Parvati fica nervosa com a perspectiva de guerra, de sua fúria nasce uma deusa violenta e continua a lutar no lugar de Parvati. Essa deidade com sede de sangue é geralmente identificada como Kali. Na maioria das circunstâncias, no entanto, os mitos enfatizam o lado mais suave de Parvati. A imagem de Parvati no campo de batalha é tão deslocada que outra deusa deve ser convocada para incorporar sua fúria e dissociar essa fúria de Parvati.


O tema principal do ciclo de mitos de Parvati é claro. A associação entre Parvati e Shiva representa a tensão contínua no Hinduísmo entre o ideal ascético e o ideal familiar. Parvati, na maioria das vezes, representa o ideal familiar. Sua missão é atrair Shiva para o mundo do casamento, sexo, e crianças, tentá-lo para fora do asceticismo, yoga, e outras preocupações sobrenaturais. Nesse papel Parvati é quem sustenta a ordem do dharma, quem aumenta a vida no mundo, quem representa a beleza e a atração da vida munda, sexual, quem estima a casa e a sociedade ao invés da floresta, as montanhas ou da vida ascética. Parvati civiliza Shiva com sua presença; na verdade, ela o domestica.


Na mitologia Hindu, uma das principais funções de Shiva é a destruição do cosmos. De fato, Shiva possui um aspecto selvagem, imprevisível, destrutivo. Como o grande dançarino cósmico, ele periodicamente faz a tandava, uma dança especialmente violenta. Segurando um machado de batalha quebrado, ele dança tão selvagemente que o cosmos é destruído completamente. Os rodopios de seus braços e sua cabeleira esvoaçante batem nos corpos celestiais, tirando-os de cursos ou destruindo-os completamente. As montanhas tremem e os oceanos levantam à medida que o mundo é destruído por sua dança violenta. Parvati, em contraste, é retratada como a construtora paciente, a que segue Shiva por toda parte, tentando amenizar os efeitos violentos de seu marido. Ela é uma grande força de preservação e reconstrução no mundo e como tal compensa a violência de Shiva.


Quando Shiva dança violentamente a tandava, Parvati acalma-o com olhares amáveis, ou complementa sua violência com um passo lento e criativo que ela mesma criou.


O objetivo de Parvati em seu relacionamento com Shiva não é nada menos que a domesticação do deus ascético e solitário cujo comportamento beira a loucura. Shiva é indiferente à propriedade social, não se importa com crianças, diz que a mulher é um obstáculo à vida espiritual, e é desdenhoso dos enfeites da vida familiar. Parvati tenta envolve-lo na vida mundana familiar argumentando que ele deve seguir as convenções se a ama e a quer. Ela o persuade, por exemplo, a casar-se com ela de acordo com os devidos rituais, a seguir os costumes, ao invés de simplesmente fugir com ela. Ela, no entanto, não é bem-sucedida em mudar seus adornos e hábitos ascéticos. Ela freqüentemente reclama de sua nudez e acha seus ornamentos horríveis. Geralmente instigada por sua mãe, Parvati reclama que ela não possui uma casa adequada para morar. Shiva, como bem se sabe, não tem uma casa, mas prefere viver em cavernas, em montanhas, ou em florestas ou vagar pelo mundo como um pedinte sem-teto.


Muitos mitos retratam as respostas de Shiva aos pedidos de Parvati por uma casa. Quando ela reclama que a chuva chega em breve e que não há casa para protege-la, Shiva simplesmente a leva para o pico mais alto das montanhas, acima das nuvens, onde não chove. Além disso, ele diz que sua “casa” é o universo e argumenta que um asceta entende que o mundo todo é sua moradia. Esses argumentos filosóficos nunca satisfazem Parvati, mas ela nunca consegue convencê-lo.


Shiva é um deus de excessos, tanto ascético como sexual, e Parvati assume o papel de modificadora. Como uma representante do ideal familiar, ela representa o ideal do sexo controlado, ou seja, sexo casado, que é o oposto do asceticismo e erotismo.


O tema do conflito, tensão ou oposição entre o jeito do asceta e o jeito da dona do lar na mitologia de Shiva e Parvati rendem-se a uma visão de reconciliação, interdependência, e harmonia simbólica em diversas imagens que combinam as duas deidades. Três temas são centrais na mitologia, iconografia e filosofia de Parvati:
- O tema de Shiva-Shakti
- A imagen de Shiva como Ardhanareshwara (o Senhor que é metade mulher)
- A imagem de linga e yoni


Shiva Shakti
A idéia de que os grandes deuses masculinos possuem um poder inerente através do qual podem empreender atividade criadora é corrente no pensamento filosófico Hindu. Quando esse poder, ou Shakti, é personificado, é sempre na forma de uma deusa. Parvati, naturalmente, assume a identidade da Shakti de Shiva. Ela é a força fundamental e que impele a criação. Nesse papel ativo-criativo ela é identificada com prakriti (natureza), enquanto Shiva é identificado com purusha (espírito puro). Como prakriti, Parvati representa a tendência inerente da natureza de expressar-se em formas concretas e seres individuais. Nessa tarefa, no entanto, Parvati deve ser posta em ação pelo próprio Shiva. Ela não é vista como antagônica a ele. Seu papel como sua Shakti é sempre interpretado como positivo. Através de Parvati, Shiva (o Absoluto) é capaz de expressar-se na criação. Sem ela ele permaneceria inerte, indiferente, inativo. Somente associado a ela que Shiva pode perceber ou manifestar seu potencial. Parvati como Shakti não apenas complemente Shiva, ela o completa.


Uma variedade de imagens e metáforas são usadas para expressar essa harmoniosa interdependência. Shiva é o princípio masculino da criação, Parvati o princípio feminino; Shiva é o céu, Parvati a terra; Shiva é o oceano, Parvati a praia; Shiva é o sol, Parvati sua luz; Parvati é todos os gostos e cheiros, Shiva o apreciador de todos os gostos e cheiros; Parvati é a corporificação de todas as almas individuais, Shiva é a própria alma; Parvati assume qualquer forma que é possível ser pensada, Shiva pensa em todas as possíveis formas; Shiva é o dia, Parvati a noite; Parvati é a criação, Shiva o criador; Parvati é o discurso, Shiva o significado; e assim por diante. Os dois são, na verdade, um – aspectos diferentes da realidade final – e como tal são complementares e não antagônicos.


Ardhanareshwara
O significado da forma Ardhanareshwara de Shiva é parecido. A imagem mostra uma figura metade homem metade mulher. O lado direito é Shiva e está adornado com seus ornamentos; o lado esquerdo é Parvati e adornado com os ornamentos dela.


No Shiva-Purana o deus Brahma é incapaz de continuar sua tarefa com a criação porque as criaturas que ele produziu não se multiplicam. Ele então pede para que Shiva o ajude. Shiva aparece na sua forma Ardhanareshwara. Essa forma hermafrodita se separa em Shiva e Parvati, e Parvati, a pedido de Brahma, permeia a criação com sua natureza feminina, que acorda o aspecto masculino da criação para a atividade fértil.


Sem essa metade feminina, ou natureza feminina, a divindade Shiva é incompleta e incapaz de continuar a criação. Além da idéia Shiva-Shakti, a imagem andrógina de Shiva e Parvati enfatiza que as duas deidades são necessárias uma à outra, e somente em união podem se completar. Nessa forma, a divindade transcende a particularidade sexual. Deus é tanto masculino quanto feminino, tanto pai quanto mãe, tanto reservado quanto ativo, tanto temível quanto gentil, tanto destrutivo quanto construtivo, e assim por diante.


Linga e Yoni

A imagem do linda na yoni, que é a forma mais comum da deidade nos templos de Shiva, também ensina a lição que a tensão entre Shiva e Parvati é revolvida na interdependência. Parvati como uma entidade sexual tem êxito em moderar o excessivo alheamento de Shiva do mundo e também seu excessivo vigor sexual. Na forma da yoni, Parvati preenche e completa as tendências criativas de Shiva. Assim como a grande yoni que acumula uma imensa potência sexual, ele e simbolizado pelo linga. A grande potência é criativamente liberada no contato sexual com Parvati. A imagem do linga na yoni simboliza a liberação criativa no ato erótico final de poder armazenado através do asceticismo. O ato erótico é então aumentado, fica mais potente, fecundo, e criativo, por causa do poder que Shiva guarda do asceticismo.


Apesar de a maioria das artes darem a Parvati uma aura religiosa, incluindo uma certa verdade poética, existe também uma expressão dos amores românticos e maternais de Parvati. Possuindo uma graça rítmica e refinada sobre eles, essas representações possuem um certo charme terreno e espontaneidade. Nessa forma, Parvati não é apenas mais amável e acessível, mas também pertence ao santuário ou às paredes da casa. Elas não são apenas ícones ou poesia visual, mas seres míticos reduzidos para a realidade diária. Essa Parvati “real” é aquela com quem um homem comum pode se relacionar, adorar e celebrar, de sua maneira pessoal.
http://aguapotavel.blogspot.com/s

sábado, 22 de outubro de 2011

KALI A FORÇA FEMININA




A Índia sempre me fascinou e acredito que também fascina muita gente. A diversidade e riqueza cultural que lá existe são tamanhas e seus deuses são impressionantes. Nesse artigo resolvi falar de Kali, uma das faces da grande mãe que muitas vezes é mal-interpretada. Espero que gostem!


Nós sabemos que desde a pré-história a deusa mãe é adorada como fonte de vida e fertilidade. Mas na Índia, ela só passou a ser a Grande Deusa, cheia de poderes cósmicos, a partir do século V ou VI, com a composição do Devi Mahatmya (Glória da Deusa), o que fez com que a adoração do princípio feminino adquirisse novas dimensões. Nesse texto, a deusa deixa de ser apenas a fonte misteriosa da vida e passa a ser a própria terra, que tudo cria e consome.


Durante uma batalha entre as forças divinas e anti-divinas, Kali aparece pela primeira vez no Devi Mahatmya, quando emana da testa da Deusa Durga, que é a caçadora de demônios. O nome Durga significa "Além do Alcance" e ela representa a autonomia virginal e cruel da mulher guerreira.


Kali é representada como uma mulher preta com quatro braços; em uma mão ela tem uma espada, em outra a cabeça do demônio que ela caçou, com as outras duas ela encoraja seus adoradores. Seus brincos são dois cadáveres e ela veste um colar de crânios; ela veste apenas um cinto feito de mãos de homens mortos, e sua língua fica pra fora da boca. Seus olhos são vermelhos, e seu rosto e seios estão lambuzados de sangue. Ela fica em pé, com um pé apoiado na coxa e outro no peito de seu marido.


Todo mundo fala da crueldade da aparência de Kali. Mas, apesar de sua forma cruel ser cheia de símbolos assustadores, as pessoas acabam por interpreta-los de maneira errada: o fato de Kali ser negra, por exemplo, simboliza sua natureza compreensiva e abrangente, já que preto é a cor na qual todas as outras cores se fundem; o preto as absorve e dissolve. 'Assim como todas as cores desaparecem no preto, também todos os nomes e formas desaparecem em Kali' (Mahanirvana Tantra). O preto também é a completa ausência de cor, significando também a natureza de Kali como a realidade última. No sânscrito isso é chamado de nirguna (além da qualidade e forma). De qualquer maneira, a cor preta de Kali simboliza sua transcendência de todas as formas.


Um poeta devoto diz:


"É Kali, minha Divina Mãe, de compleição negra?".
Ela parece ser negra porque é vista à distância;
mas quando finalmente conhecida Ela não mais o é.
O céu parece ser azul à distância, mas olhe de perto
e descobrirás que não tem cor alguma.
A água do oceano parece azul à distância,
mas quando chegas perto e a coloca em suas mãos,
descobrirás que é incolor."
... Ramakrishna Paramhansa (1836-86)


A nudez de Kali tem um significado parecido. Muitas vezes ela é descrita como vestida de espaço ou de céu. Em sua nudez absoluta e primordial ela é livre de qualquer cobertura de ilusão. Ela é Natureza (Prakriti em sânscrito), despida de roupas. Isso simboliza que ela é completamente além do nome e da forma, completamente além dos efeitos ilusórios de maya (falsa consciência). Sua nudez representa a consciência totalmente iluminada, não atingida por maya. Kali é o fogo brilhante da verdade, que não pode ser escondido pelas roupas da ignorância. A verdade simplesmente incendeia qualquer roupa que tenta cobri-la..


Ela possui os seios cheios; sua maternidade é uma criação sem fim. Seu cabelo desalinhado forma uma cortina de ilusão, o tecido do espaço-tempo que organiza a matéria do mar caótico de espuma quântica. Sua colar de cinqüenta cabeças humanas, cada uma representando uma das cinqüenta letras do alfabeto sânscrito, simboliza o depósito de conhecimento e sabedoria. Ela veste um cinto de mãos humanas cortadas - mãos que são os principais instrumentos de trabalho e por isso significam a ação do karma. Por isso os efeitos obrigatórios desse karma terem sido superados, cortados, como o foram, por devoção a Kali. Ela abençoou o devoto libertando-o do ciclo do karma. Seus dentes brancos são um símbolo de pureza (do sânscrito Sattva), e sua longa língua, que é vermelha, representa o fato que ela consome todas as coisas e denota o ato de provar ou apreciar o que a sociedade afirma ser proibido, ela aprecia todos os sabores do mundo.


Kali contém o ciclo completo de criação e destruição, e isso é representado por seus quatro braços. Ela representa os ritmos criativos e destrutivos inerentes ao cosmos. Suas mãos direitas, fazendo os mudras de "não temas" e concedendo dádivas, representam o aspecto criativo de Kali, enquanto as mãos esquerdas, segurando uma espada ensangüentada e uma cabeça cortada, representam seu aspecto destrutivo. A espada ensangüentada e a cabeça cortada são a destruição da ignorância e o amanhecer do conhecimento. A espada é a espada do conhecimento, que corta os nós da ignorância e destrói a falsa consciência (a cabeça cortada). Kali abre os portões da liberdade com essa espada, tendo cortado os oito elos que prendem os seres humanos. Finalmente seus três olhos representam o sol, a lua, e o fogo, com os quais ela consegue observar os três modos do tempo: passado, presente e futuro. É daí que vem a origem do nome de Kali, que é a forma feminina de 'Kala', o termo sânscrito para Tempo.


Um outro aspecto simbólico, mas que dá muito o que falar, de Kali é sua proximidade com o solo de cremação:


Ó Kali, Tu és afeiçoada aos solos crematórios;
então eu transformei meu coração em um
para que tu, uma residente de solos crematórios,
possas dançar lá sem cessar.
Ó Mãe! Não possuo outro vão desejo em meu coração;
o fogo da pira funerária está queimando lá;
Ó Mãe! Preservei as cinzas dos cadáveres ao redor
para que Tu possas vir.
Ó Mãe! Mantendo Shiva, o conquistador da Morte, sob Teus pés,
Venhas, dançando ao som da música;
Prasada aguarda com seus olhos fechados
... Ramprasad (1718-75)


A moradia de Kali, o solo crematório, é um lugar onde os cinco elementos (Sânscrito: pancha mahabhuta) estão dissolvidos. Kali mora onde a dissolução acontece. Em termos de devoção e adoração, isso mostra a dissolução de acessórios, raiva, desejo, e outras emoções, sentimentos e idéias que nos mantêm prisioneiros. O coração do devoto é onde tudo queima, e é nesse coração que Kali reside. O devoto faz sua imagem em seu coração e sob suas influências queima todas limitações e ignorância nos fogos crematórios. Esse fogo que queima dentro do coração é o fogo do conhecimento, (Sânscrito: gyanagni), presente de Kali.


A imagem de Shiva deitado sob os pés de Kali representa-o como o potencial passivo da criação e Kali como sua Shakti. Shakti é o princípio criativo feminino Universal e a força energizante atrás de todas as divindades masculinas incluindo Shiva. Shakti é conhecida pelo nome de Devi, da raiz 'div', que significa brilhar. Ela é a Brilhante, que possui nomes diferentes em lugares diferentes e com diferentes aparências, como o símbolo dos poderes doadores-de-vida do Universo. Sem o i, Shiva é Shva, o que em sânscrito significa cadáver. Isso sugere que sem sua Shakti, Shiva é impotente ou inerte.


Kali nos mostra como o mundo é apenas um jogo dos deuses. Ela traz em sua aparência selvagem a criatividade espontânea do reflexo divino. À medida que Kali é identificada com o mundo dos fenômenos, ela apresenta a corporificação do mundo que forma a base de sua natureza efêmera e imprevisível. Em sua dança louca, cabelo desgrenhado, e berro sinistro faz-se a alusão de um mundo vacilante, fora de controle. O mundo é criado e destruído na dança selvagem de Kali, e a verdade da redenção está na nossa percepção de que também somos convidados a fazer parte dessa dança, para permitir a batida frenética da dança de vida e morte da Mãe.


Ó Kali, minha Mãe cheia de Êxtase! Sedutora do
onipotente Shiva
Em Tua alegria delirante Tu danças, batendo
Tuas mãos juntas!
Tua és o Motor de tudo o que se move, e nós
somos nada senão Teus brinquedos
...Ramakrishna Paramhans


Kali e seu cortejo dançam aos ritmos ditados por Shiva (Senhor da destruição) e seus seguidores zoocéfalos que vivem no Himalaia. Associados com o caos e destruição incontrolável, os seguidores de Kali exibem espadas e carregam acima de suas cabeças cálices de caveiras de onde bebem o sangue que os intoxica. Kali, como Shiva, possui um terceiro olho, mas em todos os outros aspectos os dois são diferentes. Os membros negros e definhados de Kali, seus movimentos angulares e caretas cruéis carregam uma intensidade selvagem. Seu cabelo solto, colar de crânios e capa de tigre chicoteiam em torno de seu corpo à medida que ela bate os pés e as palmas ao ritmo da dança.


Muitas histórias descrevem a dança de Kali e Shiva como a que "ameaça destruir o mundo" por causa de seu poder feroz. A imagem de Kali dançando com Shiva segue o mito do demônio Daruka. Quando Shiva pede que sua mulher Parvati destrua esse demônio, ela entra no corpo de Shiva e se transforma com o veneno que é armazenado em sua garganta. Ela emerge de Shiva como Kali, de aparência feroz, e com a ajuda de seu cortejo bebedor de sangue ataca e derrota o inimigo. Kali, no entanto, ficou tão intoxicada com o entusiasmo pelo sangue da batalha que sua fúria e apetite selvagem ameaçaram destruir o mundo todo. Ela continuou sua violência até Shiva manifestar-se como uma criança e cair chorando no meio do campo de cadáveres. Kali, enganada pelo poder de ilusão de Shiva, tornou-se calma à medida que amamentava o bebê. Quando a noite chegou, Shiva fez a dança da criação (tandava) para agradar a deusa. Deliciada com a dança, Kali e seu cortejo juntaram-se a ela.


Essa imagem impressionante e intensa revela perfeitamente a natureza de Kali como a Divina Mãe. Ramaprasad expressa esse sentimento da seguinte forma:


Veja minha Mãe brincando com Shiva,
perdida num êxtase de prazer!
Bêbada com um gole do vinho celestial,
Ela oscila, e mesmo assim não cai.
Ereta Ela permanece no peito de Shiva,
e a terra Treme sob Seu passo;
Ela e Seu Amo estão loucos em frenesi.
Afastando todo medo e vergonha.
... Ramaprasad (1718-75)


Até hoje os devotos de Kali são atraídos para ela por causa de suas qualidades humanas e maternais. Nas relações humanas, o amor entre mãe e filho é geralmente considerado o mais puro e mais forte. Da mesma maneira, o amor entre a Deusa Mãe e sua criança humana é considerado a relação mais próxima e carinhosa com a divindade. Conseqüentemente, os devotos de Kali formam com ela um laço de intimidade e amor. Mas o devoto nunca esquece os aspectos demoníacos e assustadores de Kali. Ele não distorce a natureza de Kali e a verdade que ela revela; ele não se recusa a meditar em seus traços apavorantes. Ele os cita repetidamente em suas canções mas nunca é repelido por eles. Kali pode ser assustadora, louca, a mestra descuidada de um mundo fora de controle, mas ela é, apesar de tudo, a Mãe de tudo. Como tal, ela deve ser aceita por suas crianças - aceita com admiração e pavor, mas mesmo assim aceita. O poeta, num tom íntimo e iluminado, trata a Mãe da seguinte forma:


Ó Kali! Por que Tu perambulas nua?
Tu não tens vergonha, Mãe!
Vestes e ornamentos Tu não tens nenhum;
no entanto Tu te gabas em ser a filha do Rei.
Ó Mãe! É um mérito de Tua família que Tu
Coloques teus pés em Teu marido?
Tu estás nua; Teu marido está nu; ambos vagam pelos solos de cremação.
Ó Mãe! Estamos todos com vergonha de você; coloque tua veste.
Tu jogaste fora Teu colar de jóias, Mãe,
E vestes um colar de cabeças humanas.
Prasada diz: "Mãe! Tua beleza cruel assustou
Teu consorte nu.
... Ramaprasad


A alma que venera sempre se torna uma criança: a alma que se torna uma criança encontra Deus mais freqüentemente como mãe. Numa meditação antes do Sagrado Sacramento, alguma caneta escreveu essa excelente declaração: "Minha criança, você não precisa saber muito para agradar-Me. Apenas Me ame querido. Fale comigo, como você falaria com sua mãe, se ela o tivesse em seus braços."


Nos só ganhamos a dádiva de Kali quando aceitamos ou confrontamos as realidades que ela envia pra nós. Kali, de diversas formas, ensina-nos que dor, mágoa, decadência, morte e destruição não devem ser superadas ou conquistadas com a negação ou tentando explica-las. Dor e mágoa são tecidos na textura da vida humana tão intrinsicamente que nega-los é extremamente vão. Para que nós consigamos realizar a completude de seu ser, para que exploremos nosso potencial como seres humanos, devemos finalmente aceitar essa dimensão da existência. A dádiva de Kali é a liberdade, a liberdade da criança de aproveitar o momento, e só é conquistada após o confronto ou aceitação da morte. Se ignoramos a morte, fingimos que somos fisicamente imortais, fingimos que o ego é o centro das coisas, provocamos em Kali uma risada de deboche. Se confrontamos ou aceitamos a morte, ao contrário, compreendemos um modo de vida que pode encantar-nos e divertiremo-nos com o jogo dos deuses. Aceitando a mortalidade estaremos prontos para ir, cantar, dançar e gritar. Kali é a mãe de seus devotos não porque os protege da maneira que as coisas realmente são, mas porque ela revela a eles sua mortalidade e com isso liberta-os para agir com plenitude e livres, liberta-os da inacreditável teia de ligação que são a pretensão, praticidade e racionalidade adulta.

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

SHIVA O DANÇARINO


Em uma floresta no sul da Índia habitava uma grande população de sábios hereges. Então Shiva resolveu passar por lá, afim de contrariá-los, e com ele foi Vishnu, disfarçado como uma linda mulher. O que aconteceu primeiro foi uma imensa confusão; os sábios começaram a brigar entre si. Mas logo se uniram para destruir Shiva, através de encantamentos... Humpf, mal sabiam o que estavam fazendo. Então fizeram um fogo sacrificial, e dele criaram um tigre ferocíssimo, que partiu para cima do Iogue. Mas sorrindo gentilmente, Shiva o dominou e, com a unha de seu dedo mindinho, arrancou sua pele e a amarrou na cintura, como se fosse um pedaço de seda. Com aquela cara-de-tacho, os sábios renovaram suas oferendas e produziram uma serpente monstruosa. Shiva olhou para aquilo e, com a maior tranqüilidade do mundo, dominou-a, colocando-a em seu pescoço como se vestisse uma guirlanda. Então ele começou a dançar. Numa última e desesperada tentativa, os sábios enviaram sobre ele um último monstro, na forma de um anão maligno. O deus pressionou-o sob a ponta de seu pé, e quebrou as costas da criatura, que se retorceu no solo. E então, com seu último inimigo prostrado, Shiva parou de dançar.
Essa é a representação de Shiva como Nataraja, o rei dos dançarinos. Mas para entender o conceito do Nataraja, é preciso compreender a dança em si. Assim como a Ioga, a dança nos leva ao transe, ao êxtase, à vivência do divino, à compreensão da própria natureza e à ligação com a essência divina. Por isso, na Índia, a dança conviveu lado a lado com as severas práticas ascéticas e meditação (jejuns, exercícios respiratórios, introversão absoluta). O que explica o fato de Shiva, que é o Grande Iogue dos deuses, ser também o senhor da dança.

A dança é um ato criador. A dança de guerra converte os homens em guerreiros, despertando suas virtudes bélicas. A dança da caçada antecipa o êxito da caça, transformando os participantes em infalíveis caçadores. Para despertar os poderes da fecundidade, os dançarinos imitam os deuses da vegetação, da sexualidade e da chuva. Dessa forma, ela tem uma função cosmogônica, ou seja, desperta as energias que estão adormecidas dentro de nós para que dêem forma ao universo. Shiva é o Dançarino cósmico, incorpora em si mesmo a energia eterna que torna manifesta. As forças que reúne e projeta são os poderes da evolução, preservação e dissolução do universo. A natureza e todas as criaturas são o efeito dessa dança eterna.

A iconografia da imagem do Nataraja é repleta de significados. Sua mão direita superior leva um pequeno tambor, tipo uma ampulheta, que serve para a marcação do ritmo de sua dança. Ele é o som, veículo da fala e portador da revelação, tradição, encantamento, magia e verdade divina. Na Índia, o som é associado ao éter, o primeiro dos cinco elementos. Dele emanaram ar, fogo, água e terra. Por isso, som e éter significam o verdadeiro momento da criação. Há também uma lenda que diz que quando Shiva concedeu a sabedoria ao ignorante Panini (hoje reconhecido como um grande conhecedor da gramática sânscrita), o som do tambor encapsulava a totalidade da gramática sânscrita. Tanto que o primeiro verso da gramática de Panini é chamado de Shiva Sutra. O tambor-ampulheta também representa os princípios vitais do masculino e do feminino. Dois triângulos penetram a si mesmos para formar um hexágono e, quando se partem, o universo também se dissolve.

No lado oposto, a mão esquerda superior (cujos dedos formam uma meia-lua), mostra na palma uma língua de fogo. Nós sabemos que o fogo é o elemento da destruição do mundo. De acordo com a mitologia hindu, no término do Kali yuga (era na qual vivemos), o fogo aniquilará o corpo da criação, sendo ele próprio apagado pelo oceano do vazio. Dessa maneira as mãos se equilibram, som/fogo, criação/destruição, dando o balanço da dança.

A segunda mão direita faz o gesto abhaya-mudra - “não temas”, que confere proteção e paz. O dançarino é como um pai que nos embala.

A outra mão esquerda aponta para baixo, para o pé esquerdo erguido. Este é o pé que significa a liberação, onde encontramos refúgio e salvação. Para que alcancemos a união com o Absoluto, ele precisa ser venerado. O que mais me impressiona, e que eu particularmente acho interessantíssimo é que a mão que aponta para o pé tem uma pose que imita a tromba de um elefante. Esse gesto é conhecido como gaja-hasta-mudra, e nos lembra o filho de Shiva, Ganesha, o “Removedor de Obstáculos”.

O deus dança sobre o corpo prostrado do anão-demônio, de nome Apasmara Purusa. Purusa significa Homem e apasmara quer dizer Esquecimento ou Imprudência, por isso o anão simboliza a cegueira da vida, a ignorância humana. Toda a energia criativa só é possível quando o peso da inércia é superado e reprimido. O Dançarino nos fala para deixar de lado a complacência e reunirmos nossos atos.

O palco onde o deus dança é um anel de fogo e luz (prabha-mandala) que o circunda. Ele significa os processos vitais do universo e de suas criaturas. É também a energia da sabedoria, a luz transcendental do conhecimento da verdade, cuja dança emana da personificação do todo. A imagem repousa num pedestal de lótus, que aloca o universo no coração e consciência de cada um de nós. É provável que a origem do anel flamejante se refira ao aspecto destrutivo de Shiva-Rudra; mas a destruição, em Shiva, é idêntica à liberação.

O dançarino personifica e manifesta a energia eterna em suas cinco atividades (pañca-kriya). A primeira é a Criação (sristi), o derramar ou expandir. Depois a Preservação (sthiti), a duração. Em terceiro vem a Destruição (samhara), o retorno ou reabsorção, seguido por Encobrimento (tiro-bhava), o velar do verdadeiro ser por trás das vestes e máscaras das aparências, da indiferença, da manifestação de Maya. Por último a graça (anugraha) - a aceitação do devoto, o reconhecimento do iogue, a concessão da paz através de uma manifestação reveladora. Essa revelação é não apenas simultânea, como também seqüencial. Todas as cinco atividades são manifestadas em seqüência, simultaneamente à pulsação de cada momento, através das transformações temporais.

O movimento incessante e ondulante dos membros de Shiva Nataraja faz um contraste com a estabilidade da cabeça e a imobilidade do semblante de máscara. Shiva é Kala, “O Negro”, “O Tempo”; mas é também Maha Kala, “O Grande Tempo”, “A Eternidade”. Seus gestos precipitam a ilusão cósmica, seus braços e pernas velozes, o ondular do torso produzem a contínua criação-destruição do universo, a morte contrabalançando de modo preciso o nascimento, a aniquilação como fim de cada criação. A coreografia é o redemoinho do tempo. O ritmo cíclico é marcado pelas batidas dos pés do Mestre. Mas a face mantém-se calma e soberana. Há uma tensão entre a dança e a serenidade de seu semblante: é a tensão entre a eternidade e o tempo. Nós temos a tendência de nos apegarmos à dualidade, com ansiedade e prazer. Mas a dualidade na verdade não existe. A ignorância, a paixão, o egoísmo, desintegram a experiência da essência suprema, na ilusão de um mundo de existências individuais. Este mundo, entretanto, EXISTE, apesar de toda sua fluidez, e jamais terá fim.

O cabelo do Shiva é um capítulo à parte. Eles são longos e revoltos, metade soltos e a outra parte encontra-se presa, como se fosse uma pirâmide. Uma energia vital sobrenatural, correspondente ao poder da magia, reside nesses cabelos enredados que a tesoura jamais tocou. Eles se expandem, formando duas asas à esquerda e direita, uma aura em suas ondas mágicas, a exuberância da vida sensorial.

Sabemos que grande parte do charme feminino está na fragrância, no brilho de uma linda cabeleira. É o apelo sensual do Eterno Feminino, poder criador. Por isso, quem quer renunciar às forças geradoras do reino animal, indo contra os princípios procriadores da vida, do sexo, da terra e da natureza, para ingressar na via espiritual do ascetismo absoluto deve raspar os cabelos. Isso é uma representação de um ancião, cujos cabelos já caíram, e que já não é mais parte da cadeia de geração.

Já o Shiva é duas coisas opostas: o asceta arquetípico e o dançarino arquetípico. Por um lado ele é a serenidade total, a calma absorvida em si, absorto no vazio do Absoluto, onde todas as distinções se fundem e dissolvem, todas as tensões estão em repouso. Mas por outro lado ele é a atividade total, a energia da vida, frenética e lúdica.

O dançarino representa não apenas um evento qualquer de uma deidade local, mas uma visão universal onde as forças da natureza e as aspirações e limitações do homem confrontam-se e são unidas. Se alguém tivesse que escolher um único ícone para representar o extraordinariamente rico e complexo patrimônio cultural da Inda, o Shiva Nataraja poderia ser o candidato mais indicado.


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LAKSHMI FORTUNA, AMOR E ENCANTO

“Om Shrim Maha Lakshmiyei Swaha”
(“Om e saudações a Ela que fornece abundância”)

A Deusa Lakshmi, também conhecida como Shri, é personificada não somente como a Deusa da Fortuna, mas também como a incorporação do amor, da graça e do encanto. Ela é adorada como uma deusa que garante tanto a prosperidade quanto a liberação do ciclo da vida e da morte.
Lakshmi ergueu-se do mar de leite, o oceano cósmico primordial, segurando um lótus vermelho em sua mão. Cada membro da divina trindade - Brahma, Vishnu e Shiva (o criador, o mantenedor e o destruidor respectivamente) - queria tê-la para si. O pedido de Shiva foi recusado porque ele já havia pedido a Lua, Brahma tinha Sarasvati, então Vishnu pediu por ela e ela nasceu e renasceu como sua consorte em todas as suas dez encarnações.
Mas apesar de ter ficado com Vishnu como sua consorte, Lakshmi continuou sendo devota de Shiva. Há uma lenda interessante envolvendo sua devoção a esse deus:
Diariamente Lakshmi pegava mil flores colhidas por suas damas de companhia e as oferecia à imagem de Shiva de noite. Um dia, contando as flores enquanto ela colocava a oferenda, ela descobriu que havia menos que mil. Já era muito tarde para colher mais porque já era noite e os lótus já tinham fechado suas pétalas.
Lakshmi achou que era de mau agouro oferecer menos que mil. De repente ela se lembrou que Vishnu uma vez descreveu seus seios como lótus se abrindo. Ela decidiu oferece-los como as duas flores que estavam faltando.
A deusa cortou um de seus seios e colocou-o com as flores no altar. Antes que ela pudesse cortar o outro, Shiva, que estava extremamente emocionado com a sua devoção, apareceu na sua frente e pediu que parasse. Então ele transformou seu seio cortado em um redondo e sagrado marmelo (Aegle marmelos) e enviou-o à Terra com suas bênçãos, para florescer perto de seus templos.
Alguns textos dizem que Lakshimi é a esposa de Dharma. Ela e muitas outras deusas, todas personificações de certas qualidades auspiciosas, foram dadas em casamento a Dharma. Essa associação parece a princípio representar a união de Dharma (a conduta virtuosa) com Lakshmi (prosperidade e bem-estar). A moral da história é ensinar que agindo de acordo com Dharma é possível obter prosperidade.
Algumas tradições também associam Lakshmi com Kubera, o horrendo lorde dos Yakshas. Os Yakshas foram uma raça de criaturas sobrenaturais que viveram fora dos limites da civilização. Sua conexão com Lakshmi talvez descende do fato que eles foram notáveis por uma propensão para coletar, guardar e distribuir riquezas. A associação com Kubera aprofunda a aura de mistério e conexões com o submundo que se anexam à Lakshmi. Yakshas também são símbolos de fertilidade. As Yakshinis (Yakshas fêmeas) representadas freqüentemente em esculturas nos templos são mulheres com seios cheios e quadris largos com bocas amplas e generosas, inclinando-se sedutoramente contra árvores. A identificação de Shri, a deusa que corporifica o poder do crescimento, com os Yakshas é natural. Ela, assim como eles, envolve-se e revela-se na irreprimível fecundidade da vida, como exemplificado na lenda de Shiva e o marmelo, e também em sua associação com o lótus.
Há também uma associação bem interessante entre a deusa Lakshmi e o deus Indra. Indra é conhecido como o deus dos deuses, o primeiro dos deuses, é geralmente descrito como o deus celestial. Por isso é apropriado a Shri-Lakshmi ser associada à ele como sua esposa ou consorte. Nesses mitos ela aparece como a personificação da autoridade real, como sendo aquela cuja presença é essencial para o manuseio do poder real e à criação da prosperidade real.
Muitos mitos desse gênero descrevem Shri-Lakshmi como deixando um governante após o outro. Dizem que ela mora até com um demônio chamado Bali. Essa lenda deixa clara a união entre Lakshmi e reis vitoriosos. De acordo com essa lenda Bali derrota Indra. Lakshmi é atraída para as maneiras vitoriosas de Bali e sua coragem e se une a ele juntamente com suas virtudes auspiciosas. Associado à deusa adequada, Bali reina os três mundos (terra, céus e submundos) com virtude, e sob seu reinado há prosperidade em todos os lugares. Somente quando os deuses destronados conseguem enganar Bali para rende-lo é que Sarasvati o deixa, deixando-o apagado e impotente. Junto com Lakshmi, também suas qualidades o abandonam: boa conduta, comportamento virtuoso, verdade, atividade e força.
A associação de Lakshmi com tantas divindades masculinas e com a notória velocidade da boa sorte deu a ela a reputação de ser inconstante e leviana. Há um outro texto que diz que ela é tão volúvel que até mesmo em uma figura ela se move e que se ela continua com Vishnu é somente porque está atraída por suas muitas formas (avatares)! Ela também é conhecida como Chanchala, ou a incansável.
Sua inconstância convenceu seus devotos que ela pode deixá-los pelo menor motivo. Por isso eles desenvolveram diversas estratégias para prender Lakshmi, e também a prosperidade em seus estabelecimentos. Há uma seita conhecida por oferecer somente o pior tecido de malha como yastra (vestimenta) para Lakshmi; eles dizem: "É muito mais fácil para a Deusa Lakshmi abandonar nossos lares vestida em amplas faixas de tecido do que escassamente vestida no mínimo tecido que nós oferecemos a ela como vestimenta!".
No sentido mitológico, sua instabilidade e natureza aventureira lentamente começam a mudar já que ela é totalmente identificada com Vishnu, e finalmente se torna calma. Dessa maneira ela se transforma na esposa fixa, obediente e leal que reza para reunir-se ao marido em todas suas próximas vidas. As imagens mostram-na sentada no chão perto de onde seu lorde se reclina em um trono, inclinando-se a ele; um modelo de decoro social.
Fisicamente a Deusa Lakshmi é descrida como uma mulher formosa, com quatro braços, sentada em um lótus, vestida com roupas finas e jóias preciosas. Ela possui um semblante gentil, está no máximo de sua juventude e mesmo assim tem uma aparência maternal.
A característica mais chamativa em Lakshmi é sua associação persistente com o lótus. O significado do lótus em relação à Shri Lakshmi se refere à pureza e ao poder espiritual. Com as raízes na lama e desabrochando acima da água, completamente livre da lama, o lótus representa a autoridade e perfeição espiritual. Além disso, o ato de sentar-se no lótus é um motivo comum nas iconografias Budista e Hindu. Os deuses e deusas, os Buddhas e Bodhisattvas, geralmente sentam-se ou estão de pé sobre um lótus, o que sugere sua autoridade espiritual. Estar sentado sobre ou estar de alguma outra maneira associado ao lótus sugere que o ser em questão: Deus, Buddha, ou ser humano - transcendeu as limitações do mundo finito (a lama da existência) e bóia livremente numa esfera de pureza e espiritualidade. Shri-Lakshmi assim sugere mais que os poderes fertilizantes do solo úmido e que os misteriosos poderes do crescimento. Ela sugere a perfeição e um estado de refinamento que transcende o mundo material. Ela é associada não somente com a autoridade real mas também com autoridade espiritual, e combina os poderes reais e sacerdotais em sua presença. O lótus, e a deusa Lakshmi por associação, representa o desabrochar completo da vida orgânica.
Mas a deusa Lakshmi não pode ser descrita completamente sem que se mencione seu tradicional veículo, a coruja (Ulooka em Sânscrito). Dizem que por causa da sua natureza letárgica e estúpida a Deusa a leva para um passeio! Ela é a criada daqueles que sabem como controla-la; como aproveitar o máximo de seus recursos, assim como o Lorde Vishnu. Mas aqueles que a adoram cegamente são na verdade as corujas ou 'Ulookas'. A escolha é nossa: queremos ser Lorde Vishnu ou 'Ulooka' em nossa associação com Lakshmi?

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DEVI A RELUZENTE


Dêví/Deusa

 
Quando os deuses celestiais caíram exauridos após a batalha com os demônios o rei Mahishasura com sua natureza bondosa aproveitou a oportunidade para reunir um grande exercito e se autodeclarar o senhor dos céus, o governante do universo.

Essa blasfêmia chegou aos ouvidos de Vishnu que muito zangado emitiu uma forte luz de sua testa, Shiva também se zangou e ao descender de seu estado sublime de meditação emitiu um forte raio de luz ofuscante na mesma direção do raio de Vishnu. Brahma, Indra e outros deuses poderosos fizeram o mesmo emitindo raios de luz e todos esses raios se juntaram em um mesmo ponto e aos poucos a concentração abrasante das luzes assumiu a forma de uma mulher. A luz de Shiva formou o seu rosto, de Yama seu cabelo, de Vishnu seus braços, de Chandra seus seios, de Indra sua cintura, de Varuna suas coxas, da Terra seus quadris, de Brahma seus pés, de Agni, o deus do fogo, os Seus três olhos. Assim todos os deuses contribuíram com seus poderes para manifestar a auspiciosa Devi, a grande deusa Mãe. (o nome Devi deriva-se da raiz sânscrita divi que significa brilhar, assim Devi significa a reluzente).

Os imortais fizerem suas preces e a adoraram com louvores, ornamentos e armas. Shiva lhe deu um tridente, com o seu próprio. Vishnu um disco poderoso. Indra um raio. Surya, o deus do sol, lhe concedeu raios em todos os poros de sua pele e Varuna o deus do oceano, lhe presenteou com brincos, braceletes, e uma coroa de jóias divina e uma guirlanda de lótus que jamais murcha. Os deuses gritaram em uníssono, que a vitória seja da Mãe. No momento que os batalhões de demônios se aproximavam rufando seus tambores, em meio aos gritos de batalha, e ao soar das conchas. Devi era de uma estatura enorme e os demônios marchavam diretamente para Ela e ao se aproximarem atacaram-na de todos os lados, com flechas, macas, espadas e lanças. Devi emitia um som ensurdecedor urrando e rindo um sorriso aterrador e desafiante. Os dez braços dEla giravam de uma forma alternada esmagando assim as armas dos demônios e os arremessando contra seus pares. De uma só vez Ela levantava dezenas de demônios e os matava com Sua espada. Outros Ela nem se dignava levantar, paralizando-os com o tremendo barulho de Seus sinos esmagando-os após com sua maça. Quando Ela lutou com o demônio Raktabhija a terrível Mãe deusa se defrontou com vários problemas. Esse demônio tinha poderes que lhe permitiam criar novos demônios a partir de seu próprio sangue. Assim quando a deusa o feria cada gota de sangue que pingava no chão imediatamente brotava outro demônio plenamente desenvolvido. Mas no final a Mãe o sobrepujou, levantando Raktabhija e evitando que as gotas de sangue caíssem no chão, bebendo seu sangue. Esmagou-o entre seus dentes e o engoliu. Houve outro demônio que tentou sobrepujar a deusa com seus poderes mágicos. Sempre que estava ameaçado ele mudava sua forma e sua cor, porem quem pode escapar da grande Mãe? Pego pelo laço dEla cuspindo sangue o demônio foi capturado pela Devi e como uma criança que puxa um trem de brinquedo Ela o arrastou pelo campo de batalha onde já havia muitos e muitos demônios partidos ao meio pela afiada lâmina de sua espada. Agarrando alguns elefantes com uma mão, Devi jogava-os para dentro de sua boca juntamente com os demônios condutores. E assim Ela furiosamente os esmagava com seus dentes. Ela agarrou um dos demônios pelo cabelo e outro pelo pescoço, o primeiro era esmagado pelo peso de Seu pé e o outro com o Seu corpo. A presença devastadora da Mãe preenchia até mesmo as alturas do céu. Nuvens negras cobriam o local enquanto relâmpagos atemorizantes iluminavam as formas horripilantes em terra. Lá se via milhares de demônios, sem braços, sem pernas, dilacerados e cortados ao meio.

Quando Mahishasura, o rei dos demônios, viu que seu exército havia sido devastado pelos golpes da assombrosa Deusa Mãe, ele foi tomado por uma fúria devastadora. Seu corpo se expandiu assumindo a forma de um búfalo gigantesco e aterrador. Ele estava envenenado com sua própria força e valor e por isso rugia de maneira desafiadora e assim investiu contra Devi.

A Deusa gritou, ó touro você pode berrar agora, mas quando Eu o destruir, em breve, serão os deuses que irão bradar em vez de você. A terra começou a tremer com as batidas dos pés da Deusa. Mahishasura lutava com todas suas forcas e poder, mas não conseguia sobrepujar Devi. Por isso ao final ele apelou ao senso de justiça dEla dizendo que não era justo ele estar lutando com alguém tão mais poderosa. Ele alegava que Ela foi ajudada por inúmeras deusas como Durga, Kali, Chamunda, Ambhika e outros enquanto ele, Mahishasura estava só na batalha. Ela disse, eu estou sozinha, você esta vendo alguém ao meu lado? Você não percebe, ó vilão que essas deusas são apenas diferentes aspectos do meu poder e que depois retornarão a Mim. Aqui estou apenas eu mesma. Não recue, defenda-se.

E assim a selvagem batalha continuou e o demônio gigante atacou a deusa Mãe com chuvas de flechas. Ele girava discos, e brandia a maça e o bastão. Mas tudo era em vão. Ele foi morto com a lança da Devi. Assim liberando aquela alma de seu corpo e mente de natureza maligna.

As nuvens de poeira carregavam o forte odor de carne putrefata e pele chamuscadas para o horizonte que se mostrava com um forte tom vermelho sangue. Os demônios estavam mortos e o sangue deles se acumulava em poças em volta das carcaças dos elefantes e dos cavalos. Ainda insistiam em lutar contra Devi apenas alguns demônios sem cabeça. A batalha havia terminado bem como os estridentes gritos, agora se ouviam apenas os uivos dos chacais e das hienas. Nada mais havia para se matar, porém a Mãe em sua forma de Kali totalmente intoxicada pelo sangue que bebera continuava a carnificina esmagando e dilacerando os corpos já mortos dos demônios. Assim a celebração que já havia começado entre os deuses ao ver a cólera da Mãe, rapidamente foi se transformando em medo. Quem poderia parar a sua fúria? Apenas o grande Deus Shiva poderia executar tal tarefa. Untado de cinzas, o terceiro deus da trindade hindu, partiu para o campo de batalha e ali se deitou imóvel entre os cadáveres enquanto ao longe os deuses o observavam. Devi em sua fúria intoxicada andava em ziguezague entre os corpos e de repente ela se viu pisando em um belo corpo masculino nu e untado com cinzas brancas. Cheia de admiração Ela ficou paralisada por um instante olhando diretamente para os olhos dEle, Seu marido Shiva. Quando Ela percebeu que tocava o corpo de seu marido divino com seus pés, um ato de desrespeito impensável para uma mulher hindu, Kali estirou Sua língua envergonhada e isso pôs fim a destruição que Ela executava.

A antiga lenda de Devi, a grande deusa Mãe, tem passado de geração a geração entre os hindus que é proveniente de um livro sagrado dos shaktas tantras chamado Chandi. Embora essa narração sanguinária e sentimental seja alegórica, devemos considerar qual seu significado intrínseco para a sociedade hindu de hoje. Do ponto de vista religioso e social essa lenda reafirma o poder protetor do arquétipo da Mãe que é parte integral da vida familiar hindu. No ocidente, a mulher de família é observada primordialmente no seu papel de esposa, enquanto na Índia a mulher sempre é vista como Mãe. Mesmo a mulher solteira, sem filhos geralmente é chamada de mataji (Mãe). Isso é um gesto de respeito porque os hindus consideram a posição da Mãe como sendo suprema.

Na Índia, especialmente na Bengala, adora-se a grande Mãe com cerimônias de grande esplendor. Uma vez por ano durante o festival de outono chamado Durga puja é reencenada a história da estupenda protetora e assim juntam-se lado a lado intelectuais e analfabetos para adorar a Mãe nos templos, nos lares e nos pandals que se montam nas ruas. A grande Mãe abençoa esses esforços na forma da certeza de que todo ano o bem sempre Irá sobrepujar o mal.

Do ponto de vista filosófico, essa lenda é uma representação alegórica da guerra constante que acontece dentro de todos nós, ou seja, a batalha entre a nossa natureza divina contra a demoníaca. Na lenda da deusa Mãe cada uma de nossas paixões e vícios tem o seu demônio representativo, por exemplo, Sumbha é o demônio que corporifica a luxúria, Nisumbha a ambição e Mahisasura a ira.

Um famoso erudito indiano Sashi Bushan Das Gupta escreveu um artigo intitulado "Evolução da Adoração a Mãe na Índia". Ele disse: "Sempre que nossas paixões se vêem em perigo de serem erradicas ou anuladas, elas mudam de forma e cor e tentam escapar disfarçadas. Isso está bem ilustrado na história de alguns dos demônios que mudam de forma quando se defrontam com Shakti, poder divino. O fato é que essas nossas paixões e instintos têm raízes tão profundas em nós que na maioria das vezes parecem ser indestrutíveis, ou seja, ao pensarmos que acabamos com um de imediato vem outro substituir. Vemos isso bem ilustrado na luta da deusa com o demônio Raktabija que para cada gota de sangue caída ao chão brotava um outro demônio revigorado e feroz. É o despertar da Mãe dentro de nós ou seja termos plena consciência do poder divino trabalhando em nós que torna o homem forte e dotado do imenso poder de Deus. (Grandes mulheres da Índia pg. 80, por Svami Madhavananda e Ramesi Chandra)"

Alguns hindus falam da grande Mãe com a veemência de um filho que ameaça outra criança ao disputarem um brinquedo: "A minha Mãe vai te castigar se você não der isso para mim." Essa forte crença na Deusa que cuida das necessidades terrenas e espirituais parece ser infantil para os que vivem no mundo dos adultos dominados pela razão. Porém, se perscrutarmos com cuidado as camadas construídas pelos valores ditados pela sociedade, a maioria de nós concordará que em algum lugar no fundo de nossa alma existe uma vereda reconfortante reservada para nossa Mãe terrena bem como para nossa Mãe arquétipo. Muitos povos na história da humanidade depositaram sua crença no poder da Mãe deusa como sendo a força diretriz do universo. Svami Vivekananda ficou famoso no ocidente ao ensinar a forma mais elevada do Vedanta aham brahmasmi (Eu sou Brahmam, Eu sou Deus) é um exemplo. Não preste reverência a nenhum outro Deus exceto ao Eu que está dentro de você. Porém mesmo Svami Vivekananda em seu extremo racionalismo teve que reconhecer a Mãe Kali. Ele falou para alguns devotos de seu circulo intimo sobre sua paixão intima pela Mãe divina. O que se segue é uma transcrição de uma palestra que Svami Vivekananda proferiu para um pequeno grupo em um chalé no Thousand Island Park: "A Mãe é a primeira manifestação de poder e se considera como o ideal superior ao pai. O nome da Mãe traz a idéia de shakti, energia divina e onipotência. Para o recém nascido sua Mãe tem todo o poder e é capaz de fazer qualquer coisa. A Mãe divina é o kundalini que está adormecido dentro de nós, se não a adoramos jamais iremos nos conhecer. Os atributos da Mãe divina é misericórdia plena, poder total, e onipresença. Ela é a soma total da energia no universo. Toda e qualquer manifestação de poder no universo provém da Mãe. Ela é vida, inteligência, amor. Ela está no universo ainda que separada dele. Ela é uma pessoa que pode ser vista e conhecida. Da mesma forma que Shri Ramakrishna a viu e a conheceu. Estabelecidos na idéia dessa Mãe, qualquer coisa nos é possível. Ela responde imediatamente a nossas preces. Ela pode se mostrar a nós em qualquer forma a qualquer momento. A Mãe divina pode ter forma, rupa, e nome, (nama), ou ainda ter nome sem a forma. E a medida que nós a adoramos em seus diferentes aspectos podemos nos elevar de ser puro, ou seja sem nome nem forma... Um pedaço da Mãe, uma gota foi Krishna, outra foi Buda, outra foi Cristo. Adoração mesmo de uma centelha da Mãe no nosso lar terreno levanos a grandeza. Adore a Ela se você deseja amor e sabedoria. (Spirit Talks por Svami Vivekananda, pg. 48-49)"

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O SIGNIFICADO DO EKADAS I

A palavra sânscrita, "ekadasi", significa: "o décimo primeiro". Ela se refere ao décimo primeiro dia depois da lua cheia, e ao décimo primeiro dia após a lua nova. Há dois dias de lua plena no mês, um é a cheia, e o outro é a nova. Portanto, o Ekadasi ocorre duas vezes ao mês, exatamente nestes dias. A característica especial do Ekadasi, e o mais comum entre as pessoas, é o jejum de grãos. Isso é como é usualmente entendido. "Nós não comemos no Ekadasi", é o que as pessoas pensam que nós fazemos nestes dias. Na India, há uma rotina de abstinência de grãos, se não observar um completo jejum neste dia de Ekadasi. O particular significado desta observação não é meramente um jejum físico, mas psicológico e de pensamento, também; é algo muito essencial; são outros aspectos profundos do Ekadasi que estão envolvidos. De fato, o jejum é apenas uma expressão prática, e um símbolo, de alguma coisa mais, que nós resolvemos fazer, o qual possui um significado especial para nós. Por isso, aqueles que conhecem Astronomia, e que dizem que há uma influência do sistema planetário sobre nós, o mundo estelar, etc, sabem perfeitamente que nosso Planeta é parte do sistema Solar. Isso quer dizer que há um organismo ou organização o qual está metodicamente arranjado. Uma vez que nós sabemos que fazemos parte do movimento do sistema planetário, nós entendemos, através disso, que nós somos partes inseparáveis do sistema solar como um todo. Nossos corpos não estão separados da superfície da Terra, tal qual uma carroça que não tem nenhuma ligação orgânica com a estrada. Nosso corpo pertence ao Sistema Solar, uma gigante família da qual o Sol é a cabeça, e os planetas seus membros. O Sol guia as atividades desta família; e nós, sendo conteúdo deste sistema, não podemos ficar fora da influência do Sol. Nosso corpo está envolvido nestas leis que operam no Sistema Solar. Isso é uma descoberta da Astrologia. A Astronomia estuda os movimentos dos planetas, e estrelas, e a Astrologia os efeitos que isso produz no conteúdo do sistema. A observação do Ekadasi com um fenômeno astrológico, é feito devido a esta relação que nós temos com alguns planetas no Sistema. Nossa personalidade é inteiramente influenciada pelos movimentos dos planetas. De fato, não devemos pensar apenas que os planetas estão por sobre a nossa cabeça. Eles estão em todo o lugar. Há um movimento relativo dos planetas, entre os quais a Terra faz parte. O movimento de uma coisa relacionada a outra é chamado de movimento relativo. Não há um planeta o qual seja estático. Mesmo o Sol não está, no final das contas, estático. Todo o Sistema Solar está em movimento, e correndo em direção a uma gigantesca estrela, a qual é oitenta milhões de vezes maior e mais brilhante do que o nosso Sol, e cujas luzes não chegam até nós, como nos dizem os astrônomos. Nós compreendemos que há um movimento relativo entre os planetas e que nós somos influenciados relativamente pelos planetas. Cada planeta comando o nosso sistema, e nós não podemos nos livras desta influência do planeta da qual fazemos parte. O empuxo da gravitação possui influência sobre nosso corpo.


A lua é, supostamente, influenciadora da mente. A mente é, também, feita de substâncias materiais. A mente não é espiritual, mas material. Como é a matéria da mente? Isso pode ser perfeitamente conhecido se soubermos o como ela atua; em Homeopatia, por exemplo, o medicamento é manufaturado. Na Alopatia, nós damos medicamentos na sua base bruta, e na Homeopatia são chamados de tintura e dinamização. Na Homeopatia, uma gota da tintura mãe é misturada com cem gotas do espírito retificado, e agitado com força. A mistura é uma potência do remédio. Uma gota que é misturada em cem de substância neutra é misturada novamente. Esta é a segunda potência ou dinamização do remédio. Do mesmo modo, nós temos enormes potências. Então, você pode imaginar o que acontece com o remédio quando ele alcança elevada potência. Não há praticamente nenhum rastro da substância da tintura original, somente energia. Diz-se, então, que não há a substância, mas a vibração da substância, uma vibração da base material original. Há uma sutil vibração aromática, aromática naquele sentido de residium do medicamento original; e que a Alopatia pretende com uma substância irá remover o que a Homeopatia pretende. Todavia, esta "potencialização" é material, no sentido que ela é formada por matéria. Assim é a mente. Ela é uma parte sutil da substância material do nosso alimento. A sutil essência do alimento, não apenas o que é tomado diretamente pela boca, mas através dos sentidos, contribui para a mente ou com as coisas da mente. A mente é um sentido sutil, como um espelho o qual é feito apenas de material da terra, o pensamento brilha. Apenas uma superfície polida como um espelho é capaz de refletir a luz. A mente é um sentido material, mas o pensamento não é material. Ela é muito, mais muito sutil, e é feita de tudo o que nós tomamos ou bebemos. Assim, matéria influencia a matéria. Os planetas são tais quais corpos materiais, e assim eles influenciam a mente. A mente é a principal influência da lua. O Ekadasi é particularmente relevante a esta relação entre a lua e a mente. Você encontrará que, quando você mergulhar profundamente nos estudos de Astronomia, você não terá nada em seu corpo a não ser as influências planetárias! Nossos corpos são compostos e forças planetárias, e não há ninguém independente destas forças. Se cada planeta reivindicar a sua parte nosso corpo irá desintegrar-se. A lua influencia a mente, no seu movimento relativo orbital, bem como com referências a outros planetas e nós.


Outro importante aspecto é o local onde a mente é também dupla. Talvez você esteja vivendo em muitas casas, das quais, uma ou duas são suas próprias. Svasthana significa "um" local próprio. A mente possui muitas moradas ou centros de energia chamados de Chakras, os quais dois são seus conhecidos. O local da mente está personificado em nós em: 1. exatamente no corpo astral, na região correspondente entre as duas sobrancelhas, no estado desperto, e 2. no coração, durante o estado de sono. Se ela está no cérebro, estará ativa, e você, então, não estará dormindo. Se a mente estiver localizada na região intermediária, entre o centro na testa e o centro do coração, você estará no estado de sonho. Então, há um duplo centro da mente, o Ajña-chakra, ou o centro localizado entre as duas sobrancelhas, e o Anahata-chakra, ou o centro do coração. Em ambos estes centros, a mente sente-se em casa, porque ela está próxima de si mesma. Nos si mesma em cada. Na duas luas plenas (cheia e nova), no seu movimento, ela encontra-se no Ajña e no Anahata-chakras, no décimo primeiro dia. Visto que estes dois chakras são a sua morada, a mente fica na sua casa, e isso, fica concentrada e controlada facilmente. Esta é a experiência que nos foi dada pelos nossos mestres anciãos, e esta são as vantagens do Sadhakas. Você será capaz de concentrar muito facilmente quando a mente estiver naturalmente na sua própria morada. A mente não pode concentrar-se quando você está fora de sintonia, mas quando no seu local a contemplação é fácil. Então, o dia de Ekadasi em ambas as luas plenas, é a ocasião quando a sua mente encontra o seu lugar próprio, na lua cheia no Ajña-chakra, e na lua nova no Ahanata-chakra. Os seguidores do Yoga levam vantagens nestes dois dias, e tentam praticar a meditação profunda. Os Vaishnavas tratam os dias de Ekadasi como um dia muito sagrado, e observam jejum de grãos nestes dias.


Além de tudo isso, há uma necessidade de dar ao sistema psicológico algum descanso de vez em quando. Ele beneficia-se pelo fato de se comer pouco uma vez ou outra. Existem irregularidades que podem durar quatorze dias, mas que se corrigem num dia como o do Ekadasi. Deste modo, observar o Ekadasi possui muitas vantagens, físicas, astrais e espirituais, e porque neste dia há uma conexão com o relacionamento da mente com sua morada, junto com a Lua, então seremos de forma muito transcendental beneficiados em nossa meditação e contemplação; transcendental porque não se pode saber disso de forma consciente. Mas podemos sentir isso pelo simples fato de observarmos o Ekadasi. Na Índia, tudo possui uma interpretação espiritual. Cada rio é uma Deidade. Cada montanha é um Deus. Tudo é sagrado, e dedicado ao Divino. Tudo é presidido por uma deidade em particular: Gramdevata, Grihadevata, etc. Deus está em todo o lugar. A idéia por detrás de tudo isso é que nos temos o sentimento da presença de Deus em tudo e em todos. No espaço e no tempo, em tudo há Deus. O tempo é Deus. As direções são Deus. Assim, cada objeto torna-se uma incorporação de Deus. O dia de Ekadasi na India é um dia de iluminação religiosa, o qual é profundamente significante na vida.

SWAMI KRISHNANANDA (discipulo de Swami Sivananda)

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