terça-feira, 25 de outubro de 2011

DESLOCAMENTO DO CAMPO MAGNÉTICO DA TERRA


Algumas de suas conseqüências
Por Pedro Coelho 28 de janeiro de 2010

Como está sendo divulgado pela mídia e isso é real o pólo norte magnético da terra está se deslocando a uma velocidade de 64 km por ano no sentido Alaska – Rússia.
Para entender que isso é um acontecimento natural - aí vai uma explicação simplificada e de fácil entendimento:
O Sistema solar, é por analogia um átomo gigante, possui em seu núcleo central o Sol e os seus elementos atômicos os planetas, seus satélites e tudo mais que existe dentro do seu campo gravitacional.
Assim como os elementos atômicos giram ao redor do seu núcleo, formando um campo de energia unificado, a terra (e os demais planetas) também se desloca ao redor do sol – chamamos a este movimento que os planetas fazem ao redor do seu Sol de translação. Acima você vê uma imagem mostrando a proporcionalidade - somos muito pequenos em relação ao Sol.
Os elementos atômicos giram sobre si mesmo, assim também faz a nossa terra, a velocidade é reduzida graças ao nosso satélite que atua através da força gravitacional freando tal deslocamento.
Esses deslocamentos já são por nós velhos conhecidos e aprendemos isso na nossa infância.
Agora é preciso entender que o nosso sistema solar também se desloca a uma grande velocidade ao redor do seu núcleo central, ou seja, é também por similitude como um pequeno elemento atômico que gira ao redor do seu Sol central. O sistema solar leva mais de 26 mil anos para fazer tal percurso.
Essa informação já é do conhecimento de muitas pessoas e os cientistas estudam esse fato.
Para entender o que atualmente está ocorrendo com o planeta, a gente volta ao movimento de translação da terra. Quando ela se desloca ao redor do Sol ela altera a sua posição exposta as influências dos raios solares e temos alterações diferenciais de clima na terra devido a essas alternâncias de alinhamento com o Sol.
Assim também o nosso sistema solar, no seu deslocamento, sofre alterações, dependendo da sua posição no cosmo em relação ao grande centro Galáctico.
Então, de acordo com uma determinada posição da terra em relação ao sol, provocada pelo movimento de translação, nós temos um ambiente diferente no planeta aonde vivemos – as quatro estações do ano.
Já com relação ao deslocamento do sistema solar ao redor do núcleo galáctico temos as eras – que duram mais ou menos 2.160 anos e que são observados através da nossa posição (terra) e a posição dos outros sistemas (estrelas) no espaço cósmico.
Voltando a nossa similitude temos as estações do ano que são diferentes uma da outra, e temos também as eras que se diferenciam. A primeira é fácil a gente notar, pois numa só vida vivemos muitas primaveras, já as eras temos que recorrer ao passado para entender melhor como funcionam.
As eras se diferenciam uma das outras pelas alterações que vem causando no relevo terrestre, já no movimento de translação da terra ao redor do sol, o planeta sofre alterações climáticas.
As grandes alterações físicas ocorrem quando o sistema solar passa mais perto do grande Sol Central, pois ali é bombardeado por forças energéticas muito fortes, chamados de cinturão de fótons (já detectado pelos cientistas) que vão alterando os átomos (limpando), tornando suas vibrações mais rápidas. Nesta área existe mais atividade atômica.
O realinhamento do sistema solar com o Sol Central é que provoca o deslocamento do campo magnético da terra, ou seja, o Sistema Solar possui um cordão umbilical invisível que está ligado com o Sol Central da Galáxia.
Como o nosso sistema solar tem alguns bilhões de anos ele já fez muitas voltas galácticas e sofreu inúmeras alterações físicas – isso se comprova através de estudo das diversas camadas de solo que compõem a crosta terrestre.
Devido a esses diversos deslocamentos temos muitas forças gravitacionais atuando de forma diferenciada no nosso sistema solar e por tabela na astronave terra. Como também a nossa galáxia está se deslocando ao redor de um núcleo maior esses acontecimentos nunca se repetem por inteiro, ou seja, sempre temos um dia diferente do outro, mesmo parecendo igual - a nossa posição nunca se repete no espaço sideral.
Os antigos sabiam destes movimentos e criaram diversos locais para o acompanhamento das eras, daí surgiram muitas profecias baseadas nestes estudos de observação do cosmos.
Visto isto, agora você já sabe que tanto o nosso sistema solar como a nossa nave terra está sempre se deslocando, no espaço cósmico, numa incrível velocidade e sempre estará numa posição diferente dentro do universo.
Como essas situações são sempre novas elas provocam também alterações diferenciadas no nosso planeta. O causador destas alterações são os campos gravitacionais que atuam entre si – ou seja, influenciamos e somos influenciados o tempo todo pelas forças gravitacionais que atuam no universo.
Observe que a Terra não é redonda e sim achatada, pois, a força gravitacional que atua na linha do equador é maior que aquela que atua nos pólos.
A Terra não possui outro movimento de rotação sobre si mesmo de adaptabilidade para atender tais influencias externo-cósmica (alinhamento com o sol) e como o sistema solar está passando de uma era para outra neste nosso período de tempo passa a sofrer uma forte atuação gravitacional para se ajustar ao novo alinhamento cósmico, ou seja, um campo gravitacional está perdendo sua força de atuação no sistema solar e outro passa a atuar com mais intensidade.
O Sol se alinha com esta nova situação cósmica e por tabela leva o seu conteúdo, que são os planetas a uma nova posição em relação ao seu núcleo central (Sol).
A nossa vantagem é que a terra não é totalmente sólida e se torna maleável para tais movimentos graças ao seu núcleo, que é liquido permitindo que as placas tectônicas se desloquem por forças dos campos gravitacionais, que atuam com mais facilidade neste campo líquido, assim como a lua atua nas águas do mar.
Repetindo - O campo magnético do planeta está sempre se alinhando com o Sol este, por sua vez, também, sempre está se alinhando com o centro galáctico, como a agulha de uma bússola, não importa à rota, mudando o campo magnético a forma física vai se adaptar a essas novas condições gravitacionais. O manto líquido do interior da terra permite tais mudanças – ainda bem.
Agora você já sabe que as mudanças visíveis que estão ocorrendo no planeta, são causadas mais pelo deslocamento do sistema solar ao redor do núcleo galáctico e não necessariamente pelo ser humano.
Neste processo natural o relevo do nosso planeta está em constante alteração.
Visto isso, agora podemos especular sobre possíveis alterações físicas no planeta e suas conseqüências.
Linha do Equador:
É onde as forças gravitacionais atuam com maior intensidade.
A força gravitacional que atuava na linha do equador está se deslocando para outro local acompanhando o novo alinhamento solar, ou seja, a terra está dando meia volta sobre si mesma.
Devido a isso - as áreas que ficam na linha do equador poderão sofrer mudanças visíveis e é a área de maior risco. Áreas que já eram de risco devido as separações das placas tectônicas poderão se tornar ainda muitos instáveis e outros vão se estabilizar totalmente.
Pólos - Norte e Sul
Vão sofrer derretimento, ou melhor, vão aos poucos se deslocando para outra região, as atuais áreas poderão se tornar habitáveis, com climas temperados e solos férteis. O Clima fica aparentemente sem controle, pois está se readaptando a essas novas condições e regiões que antes nem chovia poderá receber grandes quantidade de chuvas e regiões ricas em diversidades poderão ficar desérticas com o decorrer do tempo.
Placas Tectônicas
Como já foi explicado, a terra está em constante movimento e as placas tectônicas também, já que elas são porções diversificas de matéria sólida, que flutuam sobre o magma incandescente existente no núcleo da terra. Esses movimentos das placas são imprevisíveis, como as nuvens do céu. As forças mais potentes que atuam sobre elas vem do núcleo incandesceste da terra. Em outras eras já houve o afundamento de grandes placas (Atlântida, Lemuria) e o surgimento de outras.
Esses grandes acontecimentos físicos são muitos difíceis de ocorrerem. São grandes ajustes planetários.
Acredito e tomara que assim seja que não vamos sofrer tais inconvenientes, pois ainda não alcançamos o nosso apogeu espiritual e se tal fato ocorrer (Tsunami Universal pelo afundamento de uma placa tectônica ) não vai ter ascensão e sim um retorno à era das trevas devido à destruição das infra-estruturas mundiais.
As grandes alterações estão ocorrendo no interior da terra com o alinhamento do campo magnético, depois vem à manifestação externa, então não é possível ter certeza de nada – tudo gira em torno de possibilidades ou palpites, o monitoramento desses acontecimentos é ainda a melhor saída para a raça humana.
Terremotos
É um acontecimento natural no nosso planeta, devido a sua formação. As placas tectônicas estão boiando em cima de uma camada líquida com milhares de graus que se movimenta o tempo todo – se tocando, causando terremotos.
Os terremotos vão continuar nos encontros entre as placas e também nos mares, pois é ai que as placas são mais frágeis e poderão surgir novas rachaduras.
Influência no Ser Humano
Assim como os pássaros e os outros animais a nossa coluna (a maioria) está alinhada com o campo magnético da terra.
Observe que já temos muitos pássaros “fora” do seu local natural antigo, temos também muitos animais perdidos aparecendo até mesmo em áreas urbanas, baleias encalhadas etc.
No ser humano esse campo magnético também atua de forma espetacular e basta observar que temos muitas pessoas perdendo, assim como os animais e pássaros, o controle de seus atos.
Esse é o nosso maior risco – atos impensados poderão levar qualquer um a cometer os maiores absurdos de sua vida. O campo magnético provoca uma série de efeitos na nossa mente.
Pessoas que estavam bem alinhadas com o antigo campo magnético da terra eram as que mandavam no mundo, devido a esse alinhamento perfeito que lhe dava maior poder. Com o deslocamento deste campo energético, novas pessoas irão ocupar esses lugares, a vantagem é que essas pessoas estarão com novas idéias e possuem uns corpos mais refinados, portanto, são mais maleáveis e sujeitos às mudanças que estarão ocorrendo.
Temos muitos trabalhadores da Luz já alinhados com o novo campo magnético, principalmente os mais jovens e os velhos que tem problemas de coluna (estavam desalinhados com o antigo campo magnético), que terão a grande oportunidade de recriar o mundo nestas novas condições.
Decadência dos Sistemas
Já é visível e vão se agravar mais ainda, na medida em que o campo magnético se desloca. Portanto, tudo o que estava de bem com o antigo campo/alinhamento de energias vai se modificar gradativamente.
O Novo
O novo não existe ainda, vamos ter que criar.
Temos aí uma grande oportunidade para recriar o que é bom e mudar transformar, ou liquidar o que a gente não gosta ou não presta.
Não espere mudanças rápidas, assim como o deslocamento é lento (foi opção da maioria), o velho mundo vai morrendo e o novo vai surgindo de forma natural e quase imperceptível.
Deixar Ir
Pelo que você leu acima já percebeu que tudo está em constante transformação, que é uma lei natural e que tem período que tais mudanças ocorrem com maior intensidade.
Estamos vivendo, no momento, este período fantástico deixar ir o velho (e isso inclui uma séria de coisas) é muito apropriado, pois, caso contrário, é o mesmo que remar rio acima.




Um forte abraço.
Pedro Coelho
http://www.luzdegaia.org

AS DUAS ORIGENS


As duas origens, por Shiva Hama Kur

Existem duas origens para vocês, uma é a biológica humana. A qual anunaquis, sirianos, pleiadianos, venusianos, canopianos... um total de 22 delegações fabricaram biologicamente a raça humana. Eles são os que vocês conhecem como deuses.

Porém, a alma de vocês não foi formatada na Terra! Espiritualmente vocês já existiam muito antes de virem para cá e já encarnavam em outros planetas. Vieram fazer uma experiência e aqui ficaram presos porque não estavam capacitados a viver a dualidade das emoções humanas. Ou seja, vocês mesmo eram esses extraterrestres que eu citei!

A origem espiritual monádica, supramonádica do seu Eu Sou é ligada a Micah, a Cristo Miguel, a Mitch Ham Ell, a Shtareer e todas essas hierarquias de luz, mas não a estrutura biológica da raça.

Vocês estão humanos, mas não são humanos!

Vocês já estiverem reptilianos, insectóides e outras formas mais, e voltarão a estar em novas formas.

Neste momento a experiência é no reino mamífero humano. É uma bagagem que estão adquirindo, que irão assimilar em nível de consciência e continuarão a jornada em outras esferas.

É importante que percebam que todas as formas de vida do universo são tão divinas quanto vocês! A energia primordial divina não tem forma, não tem imagem é simplesmente energia. Isso é a Fonte.

Em cada planeta, em cada universo a radiação assume uma forma para conseguir experienciar o processo co-criacional. Em outras palavras, todo filho de Deus deve voltar para Deus como Deus, como um co-criador com Deus. Este é o destino de todos nós, inclusive das entidades espirituais.

Essa jornada na escala temporal terrestre leva alguns bilhões de anos e é irreversível. Todos irão voltar a Fonte de alguma forma.
                                                            
      O Mestre Shiva Hama Kur, foi o responsavel pela canalização junto com Shtareer, da formatação da CURA QUANTICA ESTELAR, que com o tempo gerou a atual APOMETRIA QUANTICA, que as nossas amigas Carina grecco e Niama vem ministrando e revolucionando em seus cursos diversos conceitos. Shiva orbita entre 13D a 15D como Mestre do Conselho Evolutivo ou Conselho Cármico Setorial de Satânia em relação a Operação Resgate em nosso planeta Terra e em outros sistemas em Quarentena. Ele atua diretamente com Sananda e outros mestres e Arcanjos, no processo de sintonização e acoplamento de corpos de luz, para a ativação dos codigos Melchizedeck e agora Voronandeck que Shtareer esta autorizando para o nosso Superuniverso de Orvoton.

http://www.shtareer.com.br

DO SEXO AO SAMADI

Samadhi (união, êxtase, superconsciência).
A visão da sexualidade tântrica:
"Só temos uma energia que, no mais baixo, é sexual. Refinada, transforma-se pela alquimia da meditação e torna-se amor ou oração. O sexo é o fenômeno mais importante da vida. É natural, não exige preocupação. Repressão é esconder energias impedindo sua manifestação e transformação. Até hoje nenhuma sociedade encarou o sexo naturalmente.


O sexo revela que somos dependentes.
As pessoas egoístas são contra o sexo (?) Nele sempre há o risco de rejeição.

Nele nos tornamos animais, porque naturais.
Quando aceitamos o passado, o futuro se torna uma abertura.
O tantra usa o ato sexual rumo à integridade, se nos movermos nele meditativamente, sem controle, com loucura, sem tempo, sem ego, naturalmente.
Tantra é um longo caminho do sexo ao samadi.
Samadi é o supremo gol; sexo é só o primeiro passe.
Uma pessoa se torna Buda quando o sexo é transformado em Samadi.
É bom mover-se no sexo, mas permanecer observador.


A meditação é a experiência do sexo sem sexo.
O sexo é um fim em si mesmo e no presente.
Sem amor o ato sexual é apressado.
Sem pressa, estando no presente, caminha-se para a comunhão, a entrega, a espiritualidade, o relaxamento, o fluir, a fusão, o êxtase, o Samadi.
Não há necessidade de ejaculação. Quanto mais observamos, mais nossos olhos são capazes de ver, mais são perceptivos.
"O homem e a mulher são dois polos diferentes, o polo positivo e negativo da energia. Seu encontro provoca um circuito e produz um tipo de eletricidade. O conhecimento dessa eletricidade é possível se o período de cópula puder ser mantido por um período mais longo. Então uma alta carga, produzindo uma auréola de eletricidade evoluirá por si mesma. Se as correntes dos corpos estiverem num abraço total e completo, pode-se até mesmo ver um lampejo de luz na escuridão."


Do livro: Relacionamento: Amor e Liberdade - Osho
http://wwwanimamsana.blogspot.com/

A LENDA DE KAMAKHYA



Kamakhya é um complexo de dez templos que representam outras tantas formas da deusa Parvati, companheira de Xiva e situa-se em Nilachal, a montanha azul, perto de Guwahati a capital do Assam. Eis a lenda:
A consorte de Xiva, Parvati, travou uma discussão conjugal
a propósito da festa que seu pai ia dar nos próximos dias
e para a qual Xiva não tinha sido convidado.
Dizia Parvati que não precisava de convite para assistir
a um sacrifício a efectuar na casa de seu pai
e que Xiva, sendo seu marido, devia acompanhá-la.
Orgulhoso, Xiva insistia que sem convite nada feito
e que proibia a sua mulher de ir e que aquilo era uma afronta
do sogro e que era assunto encerrado.
Parvati repetia que com ou sem autorização do marido iria
à festa de qualquer maneira ... e que não que não vais ... e que sim que vou, tu não sabes do que eu sou capaz e a discussão subindo de tom e as posições extremando-se e Parvati, como derradeiro argumento, numa dança diabólica em torno de Xiva
assume sucessivamente dez formas terríficas de outras tantas deusas.
O Ser Supremo espantado e confuso com o imenso poder da sua esposa, acedeu em deixá-la ir sozinha à festa de seu pai.
A festa decorreu animada mas muita gente presente criticou
violentamente Xiva pela sua atitude de distância e soberba
em relação aos outros deuses assim como a sua mania
da superioridade. Isto perturbou mortalmente Parvati
que não admitindo tão violentas críticas ao seu marido
na ausência deste, lançou-se na fogueira do sacrifício,
imolando-se pelo fogo. A versão tântrica da história conta que ela
se auto-aniquilou pelo poder do yoga.
Xiva, que estava em meditação profunda,
como era aliás seu costume, sentiu uma enorme perturbação e,
Omnisciente, percebeu de imediato o que se tinha passado.
Louco de raiva e de dor, transportou o cadáver
da sua amada pelo mundo fora destruindo tudo à sua passagem.
Os deuses temeram pelo fim do Universo e,
reunindo um conselho, nomearam Vixnu para pôr cobro
a tão desvairada destruição. Vixnu perseguiu Xiva e,
quando o encontrou, usou o seu terrível disco
para despedaçar o corpo de Parvati em 51 pedaços
que se espalharam pela terra da Índia.
Desde então, esses 51 lugares são outros tantos xakti pithas,
locais de culto da deusa.
No Assam, em Kamakhya nas montanhas azuis,
caiu o yoni (vagina) a parte mais sagrada da deusa da procriação,
a fonte da vida. Esta é a lenda de Kamakhya, aquela cujo nome é desejo, ou Kamarupa, a que tem a forma do amor. 

http://ayapaexpress.blogspot.com

A DEUSA DO AMOR E DA BELEZA



A tradição indiana é extremamente rica em relação a deusas. Seus nomes e manifestações são tão variados que qualquer vila ou escritura, qualquer arte e artista criam suas próprias imagens dela. Algumas vezes ela é a consorte, outras uma deusa da fertilidade; às vezes ela é benevolente mas ela também pode ser horrível e má. A tradição é cheia principalmente de deusas associadas a Shiva. Mas a mais amada e celebrada artisticamente é Parvati. Ao contrário de Durga e Kali, que assumiram seus status religiosos independentes no panteão Hindu e são adoradas e veneradas ritualmente, Parvati tem atenção maior de poetas e pintores, músicos e dançarinos.


Seus aspectos são variados, seus atributos são múltiplos e muitos são seus nomes. De todos os seres míticos no panteão Hindu ela é talvez a mais amada e sem dúvida a que mais doa seu amor. Nela temos a verdadeira celebração da feminilidade Hindu. Com uma beleza sensual incomparável, seu dom não é somente físico mas espiritual, não narcisístico mas sim um oferecimento. Nela pode-se dizer que reside a grande personificação da expressão Hindu, assim como o conceito de beleza.


Na mitologia clássica, a razão de ser do nascimento de Parvati é atrair Shiva para o casamento e por conseqüência ao ciclo maior da vida casada da qual ele está afastado como um asceta solitário, vivendo nos ermos das montanhas. A deusa representa o pólo complementar ao asceta. Em seu papel de donzela, esposa, e depois como mãe, ela amplia o círculo de atividade de Shiva ao reino do lar, onde sua energia armazenada é liberada de maneiras positivas.


O nome de Parvati, que significa “ela que reside nas montanhas” ou “ela que é da montanha”, identifica-a com regiões montanhosas. Ela era a filha de Himavat (Senhor das montanhas) e sua rainha Mena. Ela é geralmente descrita como sendo muito bonita. Mostrou um interesse forte por Shiva desde o começo, repetindo seu nome para si mesma e aprazendo-se ao ouvir sobre suas aparições e proezas. Enquanto ela é ainda uma criança, um sábio vai a sua casa e após examinar as marcas em seu corpo prediz que ela se casará com um yogi nu. Quando fica claro que ela está destinada a se casar com Shiva, seus pais sentem-se extremamente honrados. Parvati, é claro, também fica radiante.


Em uma ocasião, enquanto Parvati está tentando chamar a atenção de Shiva para o casamento, Kama é enviado pelos deuses para despertar em Shiva o desejo. Quando ele atrai a atenção de Shiva com sons e cheiros de primavera, e tenta perturbar Shiva com suas armas intoxicantes, Shiva queima-o a cinzas com seu terceiro olho. Mas imperturbável em sua devoção, Parvati persiste em sua busca para ganhar Shiva como seu marido fazendo austeridades.


Uma das maneiras mais eficientes de conseguir o que se quer no hinduísmo tradicional é fazer tapas, “austeridades ascéticas”. Se você for persistente e heróico o suficiente, você irá gerar tanto calor que os deuses serão forçados a garantir-lhe qualquer desejo para salvar a si e o mundo de serem queimados. O método de Parvati para ganhar Shiva é portanto, uma estratégia comum para realizar seus desejos. É também apropriado para demonstrar a Shiva que ela pode competir com ele em seu próprio reino, que ela possui os recursos interiores, controle e coragem para se isolar do mundo e dominar completamente suas necessidade físicas. Fazendo tapas, Parvati abandona o mundo do lar e adentra o reino do mundo renunciante, chamado de mundo de Shiva. A maioria das versões do mito descreve-a superando todos os grandes sábios em suas austeridades. Ela faz todas as mortificações tradicionais, como sentar-se no meio de quatro fogueiras no meio do verão, expor-se aos elementos durante a estação das chuvas e durante o inverno, viver apenas de folhas ou ar, permanecer apoiada em uma perna por anos, etc. Até que ela acumulou tanto calor que os deuses ficaram incomodados e persuadiram Shiva a ceder ao pedido de Parvati, para que ela parasse seus esforços.


O casamento é devidamente arranjado e elaboradamente empreendido. A procissão do casamento de Shiva, que inclui a maioria do panteão Hindu, é descrita em detalhes. Um tema freqüente durante as preparações do casamento é a indignação de Mena quando ela finalmente vê Shiva pela primeira vez. Ela não pode acreditar que sua linda filha vai se casar com um indivíduo tão ultrajante; em algumas versões, Mena ameaça suicídio e desmaia quando dizem para ela que aquele ser esquisito na procissão de casamento é, na verdade, seu futuro genro.
Depois que os dois estão casados eles partem para o Monte Kailasha, a moradia favorita de Shiva, e mergulham completamente em flerte sexual, que continua ininterruptamente por um longo tempo. O deus do amor, Kama, é ressuscitado quando Shiva abraça Parvati e o suor do corpo dela mistura-se com as cinzas do deus queimado.


O amor dos dois é tão intenso que chacoalha o cosmos, e os deuses ficam assustados. Eles se aterrorizam com a idéia da criança que surgirá com a união de duas deidades tão poderosas. Eles temem os poderes extraordinários da criança. Então eles planejam interromper o ato de amor de Shiva e Parvati. Vishnu vai com seu séqüito de deuses a Kailasha e espera pacientemente do lado de fora dos aposentos de Shiva. Muitos anos se passaram e Shiva continuava trancado no quarto com Parvati. Vishnu falou com uma voz aguda e lamentosa e convenceu Shiva a sair e ouvir seu problema. Quando Shiva descuidou-se, Agni (Fogo) disfarçou-se de pombo e entrou no quarto de Shiva. Parvati percebeu imediatamente que sua privacidade havia sido violada. Shiva recolheu-se e uma gota de seu sêmen caiu no chão. Agni, na forma de pombo, comeu a gota de sêmen. Parvati no entanto ficou perturbada e com raiva pelos deuses terem se juntado e interrompido seus prazeres eróticos, e amaldiçoou-os dizendo que todas suas esposas ficariam estéreis. Ela estava irritada principalmente com Agni, por ter comido a semente de Shiva.


Quando Agni ficou impossibilitado de carregar a semente de fogo, ele foi para as margens do Ganga. Nesse momento, as esposas de sete sábios tinham decido para se banhar. Seis delas sentiram frio e foram na direção de Agni. Agni derrubou a semente e a semente entrou nas esposas e elas ficaram grávidas. Quando os sábios ficaram sabendo disso, eles advertiram suas esposas, que colocaram o embrião em um dos picos do Himalaia. Assim nasceu Kartikeya, uma criança resplandecente com seis cabeças. Shiva e Parvati ficaram deliciados com o nascimento de seu filho e isso somou muita alegria a Parvati, que havia desejado uma criança. Diz-se que, por afeição, de seus seios escorreu leite quando ela viu a criança pela primeira vez.


Os instintos maternais de Parvati foram, na verdade, as emoções mais poderosas na vida dela. Enquanto Shiva entusiasmava-se com seu gracejo romântico, a verdadeira mãe nela pedia por uma criança. Ela implorou a Shiva para gerar nela um filho e torna-la mãe mas o Shiva ascético não ouviu nada disso. Ela lembrou-o de que nenhum rito ancestral é feito para um homem que não tem descendentes. Shiva declarou que ele não tinha nenhuma vontade de ser um grahastha, chefe de família, pois isso traz restrições. Parvati ficou desolada e ao vê-la nesse estado Shiva puxou um fio de seu vestido vermelho, fez um filho e deu para ela. Parvati segurou-o junto ao seio e ele viveu. Ele sorria enquanto ele chupava seu leite e Parvati, agradecida, deu o filho a Shiva. Shiva ficou surpreso por Parvati ter soprado vida em uma criança feita de tecido mas avisou que o planeta Saturno não era auspicioso para essa criança e, enquanto pronunciava essas palavras, a cabeça da criança caiu no chão. Parvati ficou dominada pela tristeza. Shiva tentou, sem sucesso, colocar a cabeça de volta. Uma voz vinda do céu disse que somente a cabeça de alguém de frente para o norte grudaria na criança. Shiva mandou Nandi achar tal pessoa. Nandi logo achou o elefante de Indra, Airavat, deitado com sua cabeça de para o norte e começou a cortá-la. Indra interviu, mas Nandi foi bem sucedido, apesar de que na luta uma das presas do elefante tenha quebrado. Nandi levou a cabeça a Shiva e assim nasceu Ganesha. Os deuses celebraram o nascimento e Parvati ficou satisfeita.


Em um outro mito, Parvati tem uma tercira criança, Andhaka, e seu nascimento é narrado em uma lenda interessante. Brincando, Parvati fecha os olhos de Shiva com suas delicadas mãos e de repente a escuridão inundou o muno. As mãos da deusa foram embebidas no fluido de Shiva nascido da paixão, e quando aquecidas pelo calor do terceiro olho de Shiva, uma criança horrível cresceu, cega e repulsiva. Mas Parvati, leal a sua natureza, cuidou dessa criança com amor como cuidaria de qualquer outra. Mas, à medida que Andhaka cresceu, ele se tornou um demônio desejando ardentemente sua própria mãe, e foi morto por Shiva.


Na maioria do tempo, o casamento e a vida familiar de Shiva e Parvati é harmonioso, feliz e calmo. Os dois são geralmente retratados sentado em um abraço íntimo. Houve também diversos momentos de discussão filosófica entre os dois. Enquanto Shiva ensinava a parvati a doutrina do Vedanta, Parvati correspondia ensinando-o as doutrinas do Shankhya, porque se Shiva era o professor perfeito, Parvati, como yogini, não deixava por menos. Parvati estava constantemente ao lado de Shiva, encorajando, assistindo e participando de todas as suas atividades.


Uma parte importante da rotina diária de Shiva era a preparação de bhang, sua droga favorita. Parvati colhia as melhores folhas de bhang, amassava-as e filtrava a decocção em uma musselina bem limpa. Às vezes Parvati ajudava Shiva a fazer uma colcha que os manteria aquecidos nas noites frias do Kailasha. Outras vezes ela sentava-se e massageava os pés de seu amado enquanto Shiva reclinava-se embaixo de uma árvore. O maior prazer de Parvati era servir Shiva e fornecer tudo o que ele precisasse. Nada era mais importante para ela do que ser útil a seu amo, visando seu conforto e assegurando-se que ele não voltasse ao seu modo ascético solitário de auto-renúncia. Nessas atividades ela combinava os papéis de esposa cuidadosa e mãe afetuosa.


Mas Shiva e Parvati também brigam e discutem de vez em quando. Relatos bengalis de Shiva e Parvati geralmente descrevem Shiva como um marido irresponsável, maconheiro, que não pode cuidar de si mesmo. Parvati é retratada como a esposa sofredora, que freqüentemente reclama para sua mãe mas que sempre permanece imperturbável para seu marido.


Shiva também era passional em seu amor por Parvati. Entre os vários jogos que eles jogavam, o mais significante era o jogo de dados. Uma vez aconteceu que Parvati estava inicialmente perdendo para Shiva, mas então gradualmente a mesa virou e Shiva perdeu tudo que tinha apostado no jogo, incluindo a lua crescente, seu colar e brincos. Quando Parvati exigiu que Shiva desse a ela tudo que tinha apostado, ocorreu uma briga entre os dois, para a agonia de seus serventes. Parvati arrancou a cobra de Shiva, a lua crescente e até sua túnica amarrada no quadril. Os espectadores ficaram envergonhados e Shiva, com raiva, abriu seu terceiro olho. Depois desse incidente, os dois se separaram. Shiva retirou-se para a selva e Parvati para seus aposentos. Mas ela ficou atormentada com essa separação e ouvindo os conselhos de suas damas de companhia foi atrás de Shiva. Ela se transformou em uma shabari, uma mulher tribal, e aproximou-se de Shiva, que estava em meditação profunda. Shiva sentou-se atraído pela shabari e quando ele percebeu que não era ninguém mais que Parvati ele percebeu também seu erro e uniu-se a ela para a alegria dos dois.


Em outra ocasião, Parvati sente-se ofendida quando Shiva chama-a pelo apelido Kali (“neguinha”), o que Parvati toma como uma crítica a sua aparência. Ela decide livrar-se de sua compleição negra e assim o faz entregando-se às austeridades. Assumindo uma compleição dourada, ela torna-se então conhecida pelo nome Gauri (a brilhante ou a dourada). Em algumas versões do mito, sua compleição negra descartada se torna uma deusa guerreira que empreende fietos heróicos ou combate os demônios.


A presença de um alter-ego ou lado violento e escuro de Parvati é sugerida em vários mitos nos quais os demônios ameaçam o cosmos e Parvati é chamada para auxiliar os deuses derrotando o demônio em questão. Normalmente, quando Parvati fica nervosa com a perspectiva de guerra, de sua fúria nasce uma deusa violenta e continua a lutar no lugar de Parvati. Essa deidade com sede de sangue é geralmente identificada como Kali. Na maioria das circunstâncias, no entanto, os mitos enfatizam o lado mais suave de Parvati. A imagem de Parvati no campo de batalha é tão deslocada que outra deusa deve ser convocada para incorporar sua fúria e dissociar essa fúria de Parvati.


O tema principal do ciclo de mitos de Parvati é claro. A associação entre Parvati e Shiva representa a tensão contínua no Hinduísmo entre o ideal ascético e o ideal familiar. Parvati, na maioria das vezes, representa o ideal familiar. Sua missão é atrair Shiva para o mundo do casamento, sexo, e crianças, tentá-lo para fora do asceticismo, yoga, e outras preocupações sobrenaturais. Nesse papel Parvati é quem sustenta a ordem do dharma, quem aumenta a vida no mundo, quem representa a beleza e a atração da vida munda, sexual, quem estima a casa e a sociedade ao invés da floresta, as montanhas ou da vida ascética. Parvati civiliza Shiva com sua presença; na verdade, ela o domestica.


Na mitologia Hindu, uma das principais funções de Shiva é a destruição do cosmos. De fato, Shiva possui um aspecto selvagem, imprevisível, destrutivo. Como o grande dançarino cósmico, ele periodicamente faz a tandava, uma dança especialmente violenta. Segurando um machado de batalha quebrado, ele dança tão selvagemente que o cosmos é destruído completamente. Os rodopios de seus braços e sua cabeleira esvoaçante batem nos corpos celestiais, tirando-os de cursos ou destruindo-os completamente. As montanhas tremem e os oceanos levantam à medida que o mundo é destruído por sua dança violenta. Parvati, em contraste, é retratada como a construtora paciente, a que segue Shiva por toda parte, tentando amenizar os efeitos violentos de seu marido. Ela é uma grande força de preservação e reconstrução no mundo e como tal compensa a violência de Shiva.


Quando Shiva dança violentamente a tandava, Parvati acalma-o com olhares amáveis, ou complementa sua violência com um passo lento e criativo que ela mesma criou.


O objetivo de Parvati em seu relacionamento com Shiva não é nada menos que a domesticação do deus ascético e solitário cujo comportamento beira a loucura. Shiva é indiferente à propriedade social, não se importa com crianças, diz que a mulher é um obstáculo à vida espiritual, e é desdenhoso dos enfeites da vida familiar. Parvati tenta envolve-lo na vida mundana familiar argumentando que ele deve seguir as convenções se a ama e a quer. Ela o persuade, por exemplo, a casar-se com ela de acordo com os devidos rituais, a seguir os costumes, ao invés de simplesmente fugir com ela. Ela, no entanto, não é bem-sucedida em mudar seus adornos e hábitos ascéticos. Ela freqüentemente reclama de sua nudez e acha seus ornamentos horríveis. Geralmente instigada por sua mãe, Parvati reclama que ela não possui uma casa adequada para morar. Shiva, como bem se sabe, não tem uma casa, mas prefere viver em cavernas, em montanhas, ou em florestas ou vagar pelo mundo como um pedinte sem-teto.


Muitos mitos retratam as respostas de Shiva aos pedidos de Parvati por uma casa. Quando ela reclama que a chuva chega em breve e que não há casa para protege-la, Shiva simplesmente a leva para o pico mais alto das montanhas, acima das nuvens, onde não chove. Além disso, ele diz que sua “casa” é o universo e argumenta que um asceta entende que o mundo todo é sua moradia. Esses argumentos filosóficos nunca satisfazem Parvati, mas ela nunca consegue convencê-lo.


Shiva é um deus de excessos, tanto ascético como sexual, e Parvati assume o papel de modificadora. Como uma representante do ideal familiar, ela representa o ideal do sexo controlado, ou seja, sexo casado, que é o oposto do asceticismo e erotismo.


O tema do conflito, tensão ou oposição entre o jeito do asceta e o jeito da dona do lar na mitologia de Shiva e Parvati rendem-se a uma visão de reconciliação, interdependência, e harmonia simbólica em diversas imagens que combinam as duas deidades. Três temas são centrais na mitologia, iconografia e filosofia de Parvati:
- O tema de Shiva-Shakti
- A imagen de Shiva como Ardhanareshwara (o Senhor que é metade mulher)
- A imagem de linga e yoni


Shiva Shakti
A idéia de que os grandes deuses masculinos possuem um poder inerente através do qual podem empreender atividade criadora é corrente no pensamento filosófico Hindu. Quando esse poder, ou Shakti, é personificado, é sempre na forma de uma deusa. Parvati, naturalmente, assume a identidade da Shakti de Shiva. Ela é a força fundamental e que impele a criação. Nesse papel ativo-criativo ela é identificada com prakriti (natureza), enquanto Shiva é identificado com purusha (espírito puro). Como prakriti, Parvati representa a tendência inerente da natureza de expressar-se em formas concretas e seres individuais. Nessa tarefa, no entanto, Parvati deve ser posta em ação pelo próprio Shiva. Ela não é vista como antagônica a ele. Seu papel como sua Shakti é sempre interpretado como positivo. Através de Parvati, Shiva (o Absoluto) é capaz de expressar-se na criação. Sem ela ele permaneceria inerte, indiferente, inativo. Somente associado a ela que Shiva pode perceber ou manifestar seu potencial. Parvati como Shakti não apenas complemente Shiva, ela o completa.


Uma variedade de imagens e metáforas são usadas para expressar essa harmoniosa interdependência. Shiva é o princípio masculino da criação, Parvati o princípio feminino; Shiva é o céu, Parvati a terra; Shiva é o oceano, Parvati a praia; Shiva é o sol, Parvati sua luz; Parvati é todos os gostos e cheiros, Shiva o apreciador de todos os gostos e cheiros; Parvati é a corporificação de todas as almas individuais, Shiva é a própria alma; Parvati assume qualquer forma que é possível ser pensada, Shiva pensa em todas as possíveis formas; Shiva é o dia, Parvati a noite; Parvati é a criação, Shiva o criador; Parvati é o discurso, Shiva o significado; e assim por diante. Os dois são, na verdade, um – aspectos diferentes da realidade final – e como tal são complementares e não antagônicos.


Ardhanareshwara
O significado da forma Ardhanareshwara de Shiva é parecido. A imagem mostra uma figura metade homem metade mulher. O lado direito é Shiva e está adornado com seus ornamentos; o lado esquerdo é Parvati e adornado com os ornamentos dela.


No Shiva-Purana o deus Brahma é incapaz de continuar sua tarefa com a criação porque as criaturas que ele produziu não se multiplicam. Ele então pede para que Shiva o ajude. Shiva aparece na sua forma Ardhanareshwara. Essa forma hermafrodita se separa em Shiva e Parvati, e Parvati, a pedido de Brahma, permeia a criação com sua natureza feminina, que acorda o aspecto masculino da criação para a atividade fértil.


Sem essa metade feminina, ou natureza feminina, a divindade Shiva é incompleta e incapaz de continuar a criação. Além da idéia Shiva-Shakti, a imagem andrógina de Shiva e Parvati enfatiza que as duas deidades são necessárias uma à outra, e somente em união podem se completar. Nessa forma, a divindade transcende a particularidade sexual. Deus é tanto masculino quanto feminino, tanto pai quanto mãe, tanto reservado quanto ativo, tanto temível quanto gentil, tanto destrutivo quanto construtivo, e assim por diante.


Linga e Yoni

A imagem do linda na yoni, que é a forma mais comum da deidade nos templos de Shiva, também ensina a lição que a tensão entre Shiva e Parvati é revolvida na interdependência. Parvati como uma entidade sexual tem êxito em moderar o excessivo alheamento de Shiva do mundo e também seu excessivo vigor sexual. Na forma da yoni, Parvati preenche e completa as tendências criativas de Shiva. Assim como a grande yoni que acumula uma imensa potência sexual, ele e simbolizado pelo linga. A grande potência é criativamente liberada no contato sexual com Parvati. A imagem do linga na yoni simboliza a liberação criativa no ato erótico final de poder armazenado através do asceticismo. O ato erótico é então aumentado, fica mais potente, fecundo, e criativo, por causa do poder que Shiva guarda do asceticismo.


Apesar de a maioria das artes darem a Parvati uma aura religiosa, incluindo uma certa verdade poética, existe também uma expressão dos amores românticos e maternais de Parvati. Possuindo uma graça rítmica e refinada sobre eles, essas representações possuem um certo charme terreno e espontaneidade. Nessa forma, Parvati não é apenas mais amável e acessível, mas também pertence ao santuário ou às paredes da casa. Elas não são apenas ícones ou poesia visual, mas seres míticos reduzidos para a realidade diária. Essa Parvati “real” é aquela com quem um homem comum pode se relacionar, adorar e celebrar, de sua maneira pessoal.
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sábado, 22 de outubro de 2011

KALI A FORÇA FEMININA




A Índia sempre me fascinou e acredito que também fascina muita gente. A diversidade e riqueza cultural que lá existe são tamanhas e seus deuses são impressionantes. Nesse artigo resolvi falar de Kali, uma das faces da grande mãe que muitas vezes é mal-interpretada. Espero que gostem!


Nós sabemos que desde a pré-história a deusa mãe é adorada como fonte de vida e fertilidade. Mas na Índia, ela só passou a ser a Grande Deusa, cheia de poderes cósmicos, a partir do século V ou VI, com a composição do Devi Mahatmya (Glória da Deusa), o que fez com que a adoração do princípio feminino adquirisse novas dimensões. Nesse texto, a deusa deixa de ser apenas a fonte misteriosa da vida e passa a ser a própria terra, que tudo cria e consome.


Durante uma batalha entre as forças divinas e anti-divinas, Kali aparece pela primeira vez no Devi Mahatmya, quando emana da testa da Deusa Durga, que é a caçadora de demônios. O nome Durga significa "Além do Alcance" e ela representa a autonomia virginal e cruel da mulher guerreira.


Kali é representada como uma mulher preta com quatro braços; em uma mão ela tem uma espada, em outra a cabeça do demônio que ela caçou, com as outras duas ela encoraja seus adoradores. Seus brincos são dois cadáveres e ela veste um colar de crânios; ela veste apenas um cinto feito de mãos de homens mortos, e sua língua fica pra fora da boca. Seus olhos são vermelhos, e seu rosto e seios estão lambuzados de sangue. Ela fica em pé, com um pé apoiado na coxa e outro no peito de seu marido.


Todo mundo fala da crueldade da aparência de Kali. Mas, apesar de sua forma cruel ser cheia de símbolos assustadores, as pessoas acabam por interpreta-los de maneira errada: o fato de Kali ser negra, por exemplo, simboliza sua natureza compreensiva e abrangente, já que preto é a cor na qual todas as outras cores se fundem; o preto as absorve e dissolve. 'Assim como todas as cores desaparecem no preto, também todos os nomes e formas desaparecem em Kali' (Mahanirvana Tantra). O preto também é a completa ausência de cor, significando também a natureza de Kali como a realidade última. No sânscrito isso é chamado de nirguna (além da qualidade e forma). De qualquer maneira, a cor preta de Kali simboliza sua transcendência de todas as formas.


Um poeta devoto diz:


"É Kali, minha Divina Mãe, de compleição negra?".
Ela parece ser negra porque é vista à distância;
mas quando finalmente conhecida Ela não mais o é.
O céu parece ser azul à distância, mas olhe de perto
e descobrirás que não tem cor alguma.
A água do oceano parece azul à distância,
mas quando chegas perto e a coloca em suas mãos,
descobrirás que é incolor."
... Ramakrishna Paramhansa (1836-86)


A nudez de Kali tem um significado parecido. Muitas vezes ela é descrita como vestida de espaço ou de céu. Em sua nudez absoluta e primordial ela é livre de qualquer cobertura de ilusão. Ela é Natureza (Prakriti em sânscrito), despida de roupas. Isso simboliza que ela é completamente além do nome e da forma, completamente além dos efeitos ilusórios de maya (falsa consciência). Sua nudez representa a consciência totalmente iluminada, não atingida por maya. Kali é o fogo brilhante da verdade, que não pode ser escondido pelas roupas da ignorância. A verdade simplesmente incendeia qualquer roupa que tenta cobri-la..


Ela possui os seios cheios; sua maternidade é uma criação sem fim. Seu cabelo desalinhado forma uma cortina de ilusão, o tecido do espaço-tempo que organiza a matéria do mar caótico de espuma quântica. Sua colar de cinqüenta cabeças humanas, cada uma representando uma das cinqüenta letras do alfabeto sânscrito, simboliza o depósito de conhecimento e sabedoria. Ela veste um cinto de mãos humanas cortadas - mãos que são os principais instrumentos de trabalho e por isso significam a ação do karma. Por isso os efeitos obrigatórios desse karma terem sido superados, cortados, como o foram, por devoção a Kali. Ela abençoou o devoto libertando-o do ciclo do karma. Seus dentes brancos são um símbolo de pureza (do sânscrito Sattva), e sua longa língua, que é vermelha, representa o fato que ela consome todas as coisas e denota o ato de provar ou apreciar o que a sociedade afirma ser proibido, ela aprecia todos os sabores do mundo.


Kali contém o ciclo completo de criação e destruição, e isso é representado por seus quatro braços. Ela representa os ritmos criativos e destrutivos inerentes ao cosmos. Suas mãos direitas, fazendo os mudras de "não temas" e concedendo dádivas, representam o aspecto criativo de Kali, enquanto as mãos esquerdas, segurando uma espada ensangüentada e uma cabeça cortada, representam seu aspecto destrutivo. A espada ensangüentada e a cabeça cortada são a destruição da ignorância e o amanhecer do conhecimento. A espada é a espada do conhecimento, que corta os nós da ignorância e destrói a falsa consciência (a cabeça cortada). Kali abre os portões da liberdade com essa espada, tendo cortado os oito elos que prendem os seres humanos. Finalmente seus três olhos representam o sol, a lua, e o fogo, com os quais ela consegue observar os três modos do tempo: passado, presente e futuro. É daí que vem a origem do nome de Kali, que é a forma feminina de 'Kala', o termo sânscrito para Tempo.


Um outro aspecto simbólico, mas que dá muito o que falar, de Kali é sua proximidade com o solo de cremação:


Ó Kali, Tu és afeiçoada aos solos crematórios;
então eu transformei meu coração em um
para que tu, uma residente de solos crematórios,
possas dançar lá sem cessar.
Ó Mãe! Não possuo outro vão desejo em meu coração;
o fogo da pira funerária está queimando lá;
Ó Mãe! Preservei as cinzas dos cadáveres ao redor
para que Tu possas vir.
Ó Mãe! Mantendo Shiva, o conquistador da Morte, sob Teus pés,
Venhas, dançando ao som da música;
Prasada aguarda com seus olhos fechados
... Ramprasad (1718-75)


A moradia de Kali, o solo crematório, é um lugar onde os cinco elementos (Sânscrito: pancha mahabhuta) estão dissolvidos. Kali mora onde a dissolução acontece. Em termos de devoção e adoração, isso mostra a dissolução de acessórios, raiva, desejo, e outras emoções, sentimentos e idéias que nos mantêm prisioneiros. O coração do devoto é onde tudo queima, e é nesse coração que Kali reside. O devoto faz sua imagem em seu coração e sob suas influências queima todas limitações e ignorância nos fogos crematórios. Esse fogo que queima dentro do coração é o fogo do conhecimento, (Sânscrito: gyanagni), presente de Kali.


A imagem de Shiva deitado sob os pés de Kali representa-o como o potencial passivo da criação e Kali como sua Shakti. Shakti é o princípio criativo feminino Universal e a força energizante atrás de todas as divindades masculinas incluindo Shiva. Shakti é conhecida pelo nome de Devi, da raiz 'div', que significa brilhar. Ela é a Brilhante, que possui nomes diferentes em lugares diferentes e com diferentes aparências, como o símbolo dos poderes doadores-de-vida do Universo. Sem o i, Shiva é Shva, o que em sânscrito significa cadáver. Isso sugere que sem sua Shakti, Shiva é impotente ou inerte.


Kali nos mostra como o mundo é apenas um jogo dos deuses. Ela traz em sua aparência selvagem a criatividade espontânea do reflexo divino. À medida que Kali é identificada com o mundo dos fenômenos, ela apresenta a corporificação do mundo que forma a base de sua natureza efêmera e imprevisível. Em sua dança louca, cabelo desgrenhado, e berro sinistro faz-se a alusão de um mundo vacilante, fora de controle. O mundo é criado e destruído na dança selvagem de Kali, e a verdade da redenção está na nossa percepção de que também somos convidados a fazer parte dessa dança, para permitir a batida frenética da dança de vida e morte da Mãe.


Ó Kali, minha Mãe cheia de Êxtase! Sedutora do
onipotente Shiva
Em Tua alegria delirante Tu danças, batendo
Tuas mãos juntas!
Tua és o Motor de tudo o que se move, e nós
somos nada senão Teus brinquedos
...Ramakrishna Paramhans


Kali e seu cortejo dançam aos ritmos ditados por Shiva (Senhor da destruição) e seus seguidores zoocéfalos que vivem no Himalaia. Associados com o caos e destruição incontrolável, os seguidores de Kali exibem espadas e carregam acima de suas cabeças cálices de caveiras de onde bebem o sangue que os intoxica. Kali, como Shiva, possui um terceiro olho, mas em todos os outros aspectos os dois são diferentes. Os membros negros e definhados de Kali, seus movimentos angulares e caretas cruéis carregam uma intensidade selvagem. Seu cabelo solto, colar de crânios e capa de tigre chicoteiam em torno de seu corpo à medida que ela bate os pés e as palmas ao ritmo da dança.


Muitas histórias descrevem a dança de Kali e Shiva como a que "ameaça destruir o mundo" por causa de seu poder feroz. A imagem de Kali dançando com Shiva segue o mito do demônio Daruka. Quando Shiva pede que sua mulher Parvati destrua esse demônio, ela entra no corpo de Shiva e se transforma com o veneno que é armazenado em sua garganta. Ela emerge de Shiva como Kali, de aparência feroz, e com a ajuda de seu cortejo bebedor de sangue ataca e derrota o inimigo. Kali, no entanto, ficou tão intoxicada com o entusiasmo pelo sangue da batalha que sua fúria e apetite selvagem ameaçaram destruir o mundo todo. Ela continuou sua violência até Shiva manifestar-se como uma criança e cair chorando no meio do campo de cadáveres. Kali, enganada pelo poder de ilusão de Shiva, tornou-se calma à medida que amamentava o bebê. Quando a noite chegou, Shiva fez a dança da criação (tandava) para agradar a deusa. Deliciada com a dança, Kali e seu cortejo juntaram-se a ela.


Essa imagem impressionante e intensa revela perfeitamente a natureza de Kali como a Divina Mãe. Ramaprasad expressa esse sentimento da seguinte forma:


Veja minha Mãe brincando com Shiva,
perdida num êxtase de prazer!
Bêbada com um gole do vinho celestial,
Ela oscila, e mesmo assim não cai.
Ereta Ela permanece no peito de Shiva,
e a terra Treme sob Seu passo;
Ela e Seu Amo estão loucos em frenesi.
Afastando todo medo e vergonha.
... Ramaprasad (1718-75)


Até hoje os devotos de Kali são atraídos para ela por causa de suas qualidades humanas e maternais. Nas relações humanas, o amor entre mãe e filho é geralmente considerado o mais puro e mais forte. Da mesma maneira, o amor entre a Deusa Mãe e sua criança humana é considerado a relação mais próxima e carinhosa com a divindade. Conseqüentemente, os devotos de Kali formam com ela um laço de intimidade e amor. Mas o devoto nunca esquece os aspectos demoníacos e assustadores de Kali. Ele não distorce a natureza de Kali e a verdade que ela revela; ele não se recusa a meditar em seus traços apavorantes. Ele os cita repetidamente em suas canções mas nunca é repelido por eles. Kali pode ser assustadora, louca, a mestra descuidada de um mundo fora de controle, mas ela é, apesar de tudo, a Mãe de tudo. Como tal, ela deve ser aceita por suas crianças - aceita com admiração e pavor, mas mesmo assim aceita. O poeta, num tom íntimo e iluminado, trata a Mãe da seguinte forma:


Ó Kali! Por que Tu perambulas nua?
Tu não tens vergonha, Mãe!
Vestes e ornamentos Tu não tens nenhum;
no entanto Tu te gabas em ser a filha do Rei.
Ó Mãe! É um mérito de Tua família que Tu
Coloques teus pés em Teu marido?
Tu estás nua; Teu marido está nu; ambos vagam pelos solos de cremação.
Ó Mãe! Estamos todos com vergonha de você; coloque tua veste.
Tu jogaste fora Teu colar de jóias, Mãe,
E vestes um colar de cabeças humanas.
Prasada diz: "Mãe! Tua beleza cruel assustou
Teu consorte nu.
... Ramaprasad


A alma que venera sempre se torna uma criança: a alma que se torna uma criança encontra Deus mais freqüentemente como mãe. Numa meditação antes do Sagrado Sacramento, alguma caneta escreveu essa excelente declaração: "Minha criança, você não precisa saber muito para agradar-Me. Apenas Me ame querido. Fale comigo, como você falaria com sua mãe, se ela o tivesse em seus braços."


Nos só ganhamos a dádiva de Kali quando aceitamos ou confrontamos as realidades que ela envia pra nós. Kali, de diversas formas, ensina-nos que dor, mágoa, decadência, morte e destruição não devem ser superadas ou conquistadas com a negação ou tentando explica-las. Dor e mágoa são tecidos na textura da vida humana tão intrinsicamente que nega-los é extremamente vão. Para que nós consigamos realizar a completude de seu ser, para que exploremos nosso potencial como seres humanos, devemos finalmente aceitar essa dimensão da existência. A dádiva de Kali é a liberdade, a liberdade da criança de aproveitar o momento, e só é conquistada após o confronto ou aceitação da morte. Se ignoramos a morte, fingimos que somos fisicamente imortais, fingimos que o ego é o centro das coisas, provocamos em Kali uma risada de deboche. Se confrontamos ou aceitamos a morte, ao contrário, compreendemos um modo de vida que pode encantar-nos e divertiremo-nos com o jogo dos deuses. Aceitando a mortalidade estaremos prontos para ir, cantar, dançar e gritar. Kali é a mãe de seus devotos não porque os protege da maneira que as coisas realmente são, mas porque ela revela a eles sua mortalidade e com isso liberta-os para agir com plenitude e livres, liberta-os da inacreditável teia de ligação que são a pretensão, praticidade e racionalidade adulta.

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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

SHIVA O DANÇARINO


Em uma floresta no sul da Índia habitava uma grande população de sábios hereges. Então Shiva resolveu passar por lá, afim de contrariá-los, e com ele foi Vishnu, disfarçado como uma linda mulher. O que aconteceu primeiro foi uma imensa confusão; os sábios começaram a brigar entre si. Mas logo se uniram para destruir Shiva, através de encantamentos... Humpf, mal sabiam o que estavam fazendo. Então fizeram um fogo sacrificial, e dele criaram um tigre ferocíssimo, que partiu para cima do Iogue. Mas sorrindo gentilmente, Shiva o dominou e, com a unha de seu dedo mindinho, arrancou sua pele e a amarrou na cintura, como se fosse um pedaço de seda. Com aquela cara-de-tacho, os sábios renovaram suas oferendas e produziram uma serpente monstruosa. Shiva olhou para aquilo e, com a maior tranqüilidade do mundo, dominou-a, colocando-a em seu pescoço como se vestisse uma guirlanda. Então ele começou a dançar. Numa última e desesperada tentativa, os sábios enviaram sobre ele um último monstro, na forma de um anão maligno. O deus pressionou-o sob a ponta de seu pé, e quebrou as costas da criatura, que se retorceu no solo. E então, com seu último inimigo prostrado, Shiva parou de dançar.
Essa é a representação de Shiva como Nataraja, o rei dos dançarinos. Mas para entender o conceito do Nataraja, é preciso compreender a dança em si. Assim como a Ioga, a dança nos leva ao transe, ao êxtase, à vivência do divino, à compreensão da própria natureza e à ligação com a essência divina. Por isso, na Índia, a dança conviveu lado a lado com as severas práticas ascéticas e meditação (jejuns, exercícios respiratórios, introversão absoluta). O que explica o fato de Shiva, que é o Grande Iogue dos deuses, ser também o senhor da dança.

A dança é um ato criador. A dança de guerra converte os homens em guerreiros, despertando suas virtudes bélicas. A dança da caçada antecipa o êxito da caça, transformando os participantes em infalíveis caçadores. Para despertar os poderes da fecundidade, os dançarinos imitam os deuses da vegetação, da sexualidade e da chuva. Dessa forma, ela tem uma função cosmogônica, ou seja, desperta as energias que estão adormecidas dentro de nós para que dêem forma ao universo. Shiva é o Dançarino cósmico, incorpora em si mesmo a energia eterna que torna manifesta. As forças que reúne e projeta são os poderes da evolução, preservação e dissolução do universo. A natureza e todas as criaturas são o efeito dessa dança eterna.

A iconografia da imagem do Nataraja é repleta de significados. Sua mão direita superior leva um pequeno tambor, tipo uma ampulheta, que serve para a marcação do ritmo de sua dança. Ele é o som, veículo da fala e portador da revelação, tradição, encantamento, magia e verdade divina. Na Índia, o som é associado ao éter, o primeiro dos cinco elementos. Dele emanaram ar, fogo, água e terra. Por isso, som e éter significam o verdadeiro momento da criação. Há também uma lenda que diz que quando Shiva concedeu a sabedoria ao ignorante Panini (hoje reconhecido como um grande conhecedor da gramática sânscrita), o som do tambor encapsulava a totalidade da gramática sânscrita. Tanto que o primeiro verso da gramática de Panini é chamado de Shiva Sutra. O tambor-ampulheta também representa os princípios vitais do masculino e do feminino. Dois triângulos penetram a si mesmos para formar um hexágono e, quando se partem, o universo também se dissolve.

No lado oposto, a mão esquerda superior (cujos dedos formam uma meia-lua), mostra na palma uma língua de fogo. Nós sabemos que o fogo é o elemento da destruição do mundo. De acordo com a mitologia hindu, no término do Kali yuga (era na qual vivemos), o fogo aniquilará o corpo da criação, sendo ele próprio apagado pelo oceano do vazio. Dessa maneira as mãos se equilibram, som/fogo, criação/destruição, dando o balanço da dança.

A segunda mão direita faz o gesto abhaya-mudra - “não temas”, que confere proteção e paz. O dançarino é como um pai que nos embala.

A outra mão esquerda aponta para baixo, para o pé esquerdo erguido. Este é o pé que significa a liberação, onde encontramos refúgio e salvação. Para que alcancemos a união com o Absoluto, ele precisa ser venerado. O que mais me impressiona, e que eu particularmente acho interessantíssimo é que a mão que aponta para o pé tem uma pose que imita a tromba de um elefante. Esse gesto é conhecido como gaja-hasta-mudra, e nos lembra o filho de Shiva, Ganesha, o “Removedor de Obstáculos”.

O deus dança sobre o corpo prostrado do anão-demônio, de nome Apasmara Purusa. Purusa significa Homem e apasmara quer dizer Esquecimento ou Imprudência, por isso o anão simboliza a cegueira da vida, a ignorância humana. Toda a energia criativa só é possível quando o peso da inércia é superado e reprimido. O Dançarino nos fala para deixar de lado a complacência e reunirmos nossos atos.

O palco onde o deus dança é um anel de fogo e luz (prabha-mandala) que o circunda. Ele significa os processos vitais do universo e de suas criaturas. É também a energia da sabedoria, a luz transcendental do conhecimento da verdade, cuja dança emana da personificação do todo. A imagem repousa num pedestal de lótus, que aloca o universo no coração e consciência de cada um de nós. É provável que a origem do anel flamejante se refira ao aspecto destrutivo de Shiva-Rudra; mas a destruição, em Shiva, é idêntica à liberação.

O dançarino personifica e manifesta a energia eterna em suas cinco atividades (pañca-kriya). A primeira é a Criação (sristi), o derramar ou expandir. Depois a Preservação (sthiti), a duração. Em terceiro vem a Destruição (samhara), o retorno ou reabsorção, seguido por Encobrimento (tiro-bhava), o velar do verdadeiro ser por trás das vestes e máscaras das aparências, da indiferença, da manifestação de Maya. Por último a graça (anugraha) - a aceitação do devoto, o reconhecimento do iogue, a concessão da paz através de uma manifestação reveladora. Essa revelação é não apenas simultânea, como também seqüencial. Todas as cinco atividades são manifestadas em seqüência, simultaneamente à pulsação de cada momento, através das transformações temporais.

O movimento incessante e ondulante dos membros de Shiva Nataraja faz um contraste com a estabilidade da cabeça e a imobilidade do semblante de máscara. Shiva é Kala, “O Negro”, “O Tempo”; mas é também Maha Kala, “O Grande Tempo”, “A Eternidade”. Seus gestos precipitam a ilusão cósmica, seus braços e pernas velozes, o ondular do torso produzem a contínua criação-destruição do universo, a morte contrabalançando de modo preciso o nascimento, a aniquilação como fim de cada criação. A coreografia é o redemoinho do tempo. O ritmo cíclico é marcado pelas batidas dos pés do Mestre. Mas a face mantém-se calma e soberana. Há uma tensão entre a dança e a serenidade de seu semblante: é a tensão entre a eternidade e o tempo. Nós temos a tendência de nos apegarmos à dualidade, com ansiedade e prazer. Mas a dualidade na verdade não existe. A ignorância, a paixão, o egoísmo, desintegram a experiência da essência suprema, na ilusão de um mundo de existências individuais. Este mundo, entretanto, EXISTE, apesar de toda sua fluidez, e jamais terá fim.

O cabelo do Shiva é um capítulo à parte. Eles são longos e revoltos, metade soltos e a outra parte encontra-se presa, como se fosse uma pirâmide. Uma energia vital sobrenatural, correspondente ao poder da magia, reside nesses cabelos enredados que a tesoura jamais tocou. Eles se expandem, formando duas asas à esquerda e direita, uma aura em suas ondas mágicas, a exuberância da vida sensorial.

Sabemos que grande parte do charme feminino está na fragrância, no brilho de uma linda cabeleira. É o apelo sensual do Eterno Feminino, poder criador. Por isso, quem quer renunciar às forças geradoras do reino animal, indo contra os princípios procriadores da vida, do sexo, da terra e da natureza, para ingressar na via espiritual do ascetismo absoluto deve raspar os cabelos. Isso é uma representação de um ancião, cujos cabelos já caíram, e que já não é mais parte da cadeia de geração.

Já o Shiva é duas coisas opostas: o asceta arquetípico e o dançarino arquetípico. Por um lado ele é a serenidade total, a calma absorvida em si, absorto no vazio do Absoluto, onde todas as distinções se fundem e dissolvem, todas as tensões estão em repouso. Mas por outro lado ele é a atividade total, a energia da vida, frenética e lúdica.

O dançarino representa não apenas um evento qualquer de uma deidade local, mas uma visão universal onde as forças da natureza e as aspirações e limitações do homem confrontam-se e são unidas. Se alguém tivesse que escolher um único ícone para representar o extraordinariamente rico e complexo patrimônio cultural da Inda, o Shiva Nataraja poderia ser o candidato mais indicado.


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